EFELisboa

Bem conhecidas são as eternas disputas entre Espanha e Portugal, mas existem episódios curiosos que não aparecem nos livros de história, como o dia em que o Exército espanhol, do qual faziam parte Cervantes e Lope de Vega, foi derrotado nas Ilhas dos Açores por uma manada de vacas.

Aconteceu no século XVI, quando a crise sucessória de Portugal deixou o reino luso sob os domínios de Felipe II de Espanha, que mandaria em terras portuguesas desde 1580 até 1640.

O aspirante português ao trono, Dom António, fugiu então ao arquipélago dos Açores, o único território colonial português que não reconhecia Felipe II como o seu monarca.

Em 1581, o Exército espanhol desembarcou na ilha da Terceira, com os célebres autores Miguel de Cervantes (1547-1616) e Félix Lope de Vega (1562-1635) entre os combatentes, mas a missão foi um completo fracasso porque encontraram uma enorme manada de vacas.

Os habitantes da Terceira, que não contavam com uma força militar suficiente para enfrentar os 200 espanhóis que desembarcaram, reuniram o numeroso gado bovino da ilha e esporearam-no contra as tropas invasoras, às quais não lhes restou outra opção que voltarem de onde tinham vindo.

Dois anos depois, um frota de 25 naves espanholas e 60 francesas acabaram por tomar o controlo da ilha e certificaram o reinado de Felipe II sobre Portugal.

Esta é uma das lembranças que o jornalista Luís Almeida Martins recolhe em "História não oficial de Portugal", um livro que analisa a história do país desde uma perspectiva informal e divertida e na qual se incluem vários capítulos protagonizados por Espanha.

"A história é divertida ou não, dependendo de como se veja, e entre Portugal e Espanha há alguns episódios divertidos", explicou em declarações à Efe o autor, que revela no seu livro eventos que não se costumam estudar na escola.

Poucos saberão, por exemplo, que a primeira "guerra" entre Espanha e Portugal -em 1140- não foi mais que um torneio entre cavaleiros.

O rei Alfonso II de León e o seu primo Afonso Henriques -que depois se transformaria no primeiro rei de Portugal- decidiram resolver as suas diferenças mediante um torneio entre cavaleiros leoneses e lusos, evitando assim uma batalha mais sangrenta.

"É uma coisa atualmente impensável. Fez-se à semelhança do famoso episódio bíblico sobre o combate entre David e Golias, uma luta entre dois campeões, em vez de envolver centenas de combatentes", considerou Almeida Martins.

Mais conhecida foi a batalha de Aljubarrota, recordada em Portugal como uma das grandes façanhas nacionais porque consagrou em 1385 a sua independência de Espanha, já que pôs fim às pretensões de Juan de Castela de se apoderar do reino português.

A batalha, na qual uma coluna de 6.000 lusos ajudados pela plebe venceram um Exército de 32.000 castelhanos, é recordada no imaginário português pela padeira que matou sete espanhóis com a sua pá de forno.

Mas o que nem todos sabem é que o aspirante luso a reinar em Portugal, João I, achava tão poucas as opções do seu Exército que "pensou em trocar de lado".

"Foi Nuno Alves Pereira, o Santo Condestável, que o esteve sempre a animar e impediu que isso ocorresse", lembrou o jornalista, em alusão ao "herói" que comandou então o Exército português e que por isso foi canonizado em 2009.

Mas a história entre Portugal e Espanha não guarda só confrontos, também alianças, como o apoio que ofereceu o regime de Salazar ao lado franquista durante a Guerra Civil Espanhola.

"Portugal servia de base aos militares que estavam a tentar tomar a República espanhola, houve muitas reuniões clandestinas em território português", assinalou Almeida Martins, que acredita que "se pode dizer que nos primeiros tempos a capital do franquismo era Lisboa".

O território luso foi o palco de um acontecimento que mudou o rumo da história: o que estava destinado a ser o líder da revolta, José Sanjurjo, faleceu num acidente de aviação em Cascais quando se dirigia a Burgos para assumir o comando, que devido a isso recaiu em Francisco Franco.

Paula Fernández