EFELisboa

"O ano da morte de Ricardo Reis", a obra de José Saramago sobre um dos heterónimos do poeta Fernando Pessoa, chega ao grande ecrã da mão do realizador português João Botelho num momento em que a sua temática, a ascensão dos populismos e do fascismo, é mais atual do que nunca.

O filme, com data de estreia nos cinemas portugueses de 1 de outubro, recupera a obra de Saramago, publicada em 1984, que narra o regresso de Ricardo Reis a Portugal, onde se encontra com o fantasma do seu criador, Pessoa.

Botelho (Lamego, 1949) assegura que, acima do próprio Pessoa e de Ricardo Reis, há uma personagem principal que impregna a obra: o ano 1936, que a torna num texto que volta a ser atual.

"É o ano de todos os perigos. Ainda não havia COVID-19 quando gravei o filme, mas já havia Trumps, Bolsonaros, Erdogans, Orbans e Putins. De repente parece que estamos num eterno retorno, como se o mal se estivesse a aproximar", assinala em declarações à EFE.

O realizador considera que Saramago fez um "trabalho notável" ao recolher acontecimentos da época por todo o mundo, como a invasão da Polónia, Mussolini, a guerra da Etiópia, o nascimento do fascismo e a Guerra Civil espanhola.

"Tudo como se fosse uma coisa terrível", conta. "E agora estamos perto. Ainda não estamos no mesmo ponto, mas já há sinais ameaçadores desde este ponto de vista, da diferença entre uns e outros, como se as raças, os géneros e os credos fossem todos uma luta", explica.

Como tal, considera que é tão importante recuperá-lo na época atual: "Este texto é maravilhoso para alertar. Inquieta, mostra", assinala Botelho.

Para além do pano de fundo histórico, o filme aborda a relação entre criador, Pessoa, e a sua criação, Ricardo Reis, duas personadas interpretadas pelo português Luís Lima Barreto e o brasileiro Chico Díaz, respetivamente.

Escolher os atores e as localizações -o filme está ambientado em Lisboa foi gravado em Coimbra- foram duas tarefas complicadas para Botelho, que assinala que outros dos aspetos mais difíceis foi selecionar que episódios da obra incluir.

"Nunca rescrevo o trabalho dos autores. Sou fiel ao texto, é uma substância. O trabalho foi cortar e colar, nunca mudei nada. Tive que escolher alguns episódios", diz o realizador, que afirma que a obra de Saramago "parece um guião de cinema".

O Nobel da Literatura não é o único autor português que Botelho abordou na sua filmografia, que inclui grandes obras da literatura lusa como "Os Maias", de Eça de Queirós, ou "O Filme do Desassossego", baseado no livro de Pessoa.

"Creio que tenho a obrigação de devolver um pouco de serviço público e há grandes textos da literatura portuguesa que os jovens se esqueceram. É um trabalho contra o esquecimento e a perda de memória", afirma.

O filme vai chegar aos cinemas de Portugal a 1 de outubro, dada que já estava anteriormente prevista antes do começo da pandemia de coronavírus e que a produtora, Ar de Filmes, decidiu manter.

"Talvez tudo nos indique que não a devíamos estrear neste momento. Mas sentimos que embora nunca foi tão difícil fazer um filme como agora, também nunca foi tão importante fazer chegar a cultura às pessoas", explica à EFE o produtor, Alexandre Oliveira.

Pelo momento, a estreia comercial será apenas em Portugal, embora esteja previsto levar o filme a vários festivais internacionais, como a Mostra de São Paulo e o Festival de Sevilha, pelo que esperam que possa chegar às salas de outros países.

O filme, coproduzido pela Fundação José Saramago, vai ser expandido por uma série já gravada para o canal público RTP, composta por cinco episódios e com estreia marcada para o próximo ano.

Por Paula Fernández