EFEPodence (Portugal)

O ritual dos Caretos de Podence (Portugal), uma mascarada carnavalesca de origem celta para dar as boas vindas à Primavera, conseguiu o reconhecimento da UNESCO como Património Mundial depois de se ter extinguido nos anos 70, já que foi proibida pelo regime de Salazar.

É uma tradição que difere do resto das mascaradas do norte transmontano, pois os caretos -homens disfarçados- cortejam as mulheres através de danças ao som de sinos colocados à volta da cintura.

No entanto, como explicou hoje à Efe o presidente da Câmara de Podence, João Alves, este ritual foi proibido pelo regime de Salazar nos anos 70, pois "o careto era uma figura diabólica, que não tinha regras, e o regime não queria isso, queria saber quem fazia as coisas e ter o controlo de tudo".

A expressão máxima desta festividade pagã é alcançada na terça-feira de Carnaval, quando as pessoas que encarnam a figura do careto caminham energeticamente pelas ruas da cidade frente a milhares de espectadores.

É o primeiro ano em que é celebrado sob o selo de Património Mundial, e a população desta aldeia de duzentos habitantes perto da fronteira com a zona espanhola de Zamora encheu com turistas de todo o mundo.

RECUPERADO PELO CINEMA

Após o seu desaparecimento, houve duas figuras chave para que este ritual fosse reconhecido em dezembro passado pela UNESCO como Património Mundial: a cineasta Noémia Delgado e o atual diretor do Museu Casa do Careto, António Oliveira.

A cineasta portuguesa Noémia Delgado, falecida em 2016, foi a pioneira a gravar um documentário sobre as famosas máscaras do nordeste de Portugal, na região de Trás-os-Montes.

Através do seu filme conseguiram-se mostrar as singularidades das Máscaras de Podence de modo a, para além de preservarem a sua identidade, as considerarem um símbolo para o povo de Portugal.

Além disso, nos últimos trinta anos, António Cordeiro, diretor do museu "Casa do Careto" de Podence, trabalhou com os habitantes desta aldeia, especialmente com os jovens, para que esta tradição não diminuísse.

Após recuperá-la, conseguiu construir um museu sobre esta tradição em 2004, onde "nos últimos quatro dias foi visitado por cerca de 4.000 pessoas".

PERSUADIR AS MULHERES

O objetivo desta dança, que a distingue de outros caretos do norte de Portugal, é seduzir as mulheres.

"Onde há uma mulher, os caretos estão lá para a seduzir", explica António Carneiro.

Esta é uma ação que em Podence chamam "chocalhar" a mulher, pois são danças em que os protagonistas são os sons dos "chocalhos".

Esta dança para seduzir as mulheres tem vindo a evoluir, já que "antes era uma situação que era feita de forma mais dura", explica o autarca, e, inclusivamente, a agressividade das máscaras fazia com que as mulheres ficassem com medo, explicou.

"Se tivesse ficado como antes, os caretos não teriam tido essa expansão, era impensável", argumentou o presidente da Câmara.

No entanto, hoje, as mulheres participam nesta tradição ancestral da mesma forma que os homens.

Houve um tempo em que as mulheres não podiam ser, oficialmente, caretos, embora algumas chegassem ao ponto de se disfarçar, como explica a moradora de Podence Catarina Desidério.

Como o careto tapava a cara com uma máscara, as mulheres que se disfarçavam cobriam as mãos com luvas para não serem descobertas, embora o povo de Podence pudesse dizer que era uma mulher pela forma como dançava, pela forma de "chocalhar", explicou Desidério.

ARTESÃOS PARA PRESERVAR A MASCARADA

Embora todas as famílias tenham em suas casas um par de trajes de careto, segundo o diretor do museu, nas últimas décadas promoveram em Podence a figura de artesãos destes trajes para que se pudessem renovar.

Desta forma, há um par de artesãos que se encarregam durante todo o ano de elaborar estas máscaras únicas.

São de cor vermelha e normalmente elaboradas em metal, embora no passado tenham sido feitas de madeira, disse o artesão José Alves à Efe.

As suas máscaras estão agora em todo o mundo e têm pedidos para as enviar a diversos países.

Além disso, esta região conseguiu que dois artesãos trabalhassem na confeção dos trajes e, assim, quem quiser renovar as suas roupas terá mais facilidade.

José Manuel Teixeira, reformado de Podence, é um deles, estando no ofício há cinco anos.

São trajes muito chamativos, com riscas vermelhas, amarelas e verdes. O vermelho simboliza o fogo, o amarelo é o sol e o verde prediz a chegada da primavera.

DE PORTUGAL PARA O MUNDO

A festa dos Caretos de Podence estendeu-se por todo o mundo graças a diferentes ações coordenadas desde esta localidade.

Há três décadas começaram a ser promovidas de norte a sul de Portugal, e o ritual destas máscaras foi exibido em Espanha, Itália, França, Alemanha ou Suíça, explica Carneiro.

Podence também já participou com os seus trajes em diferentes exposições relacionadas aos rituais de Carnaval que são organizadas em muitos países, segundo o diretor da Casa do Careto.

E para que os mais pequenos desta zona se aproximem da festa, os artesãos fazem trajes para as crianças chamados "Facanitos", que permitem que estas saiam para as ruas de Podence durante todo o Carnaval para participar na azáfama marcada pelos sinos.

Se esta é uma vila com apenas dois bares durante o ano, de sábado a terça-feira de Carnaval os locais abrem cerca de trinta adegas onde os turistas podem provar a comida tradicional deste enclave do norte de Portugal.

Por Carlos García