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Pablo Iglesias, que em 2014 se tornou numa esperança para a esquerda espanhola em plena crise económica e se converteu em vice-presidente do Governo, deixa a cena política, considerando-se um "bode expiatório" que mobilizou e facilitou o triunfo da direita nas eleições regionais de Madrid.

"Quando alguém não é útil, tem de saber como se retirar", disse o secretário-geral do Podemos na noite de terça-feira, depois de conhecer os resultados das eleições de Madrid, nas quais concorreu para tentar impulsionar o partido e travar a direita.

Para isso, Iglesias abandonou o posto de segundo vice-presidente no Governo de coligação espanhol, presidido pelo socialista Pedro Sánchez.

"Um militante deve estar onde é mais útil em qualquer momento", disse em março passado, quando anunciou a candidatura à comunidade autónoma de Madrid.

Mas, embora o seu partido tenha conseguido mais três deputados, foi amplamente ultrapassado por outro de esquerda, Más Madrid, que emergiu de uma cisão do Podemos, enquanto o conservador Partido Popular (PP) terminou a noite com uma vitória contundente.

As últimas palavras de despedida aos apoiantes na noite de eleições foram uma citação do cantor e compositor cubano Silvio Rodríguez: "Não sei qual é o destino. Caminhando, fui o que fui".

O até então líder do Podemos, do qual foi um dos fundadores, disse estar "enormemente orgulhoso" do que foi alcançado pelo grupo desde que, há sete anos, concorreu pela primeira vez a uma eleição, uma vez que o seu projeto político "mudou a história do país" e "pôs fim ao bipartidarismo".

Iglesias, professor de ciências políticas na Universidade Complutense de Madrid, chegou à arena política espanhola em 2014, quando foi eleito para o Parlamento Europeu, impulsionado pelo movimento social 15-M, mobilização dos mais afetados pela crise económica desencadeada em 2008 e que tinha Madrid como referência.

Foi na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade Complutense de Madrid que Iglesias fundou o Podemos, juntamente com outras figuras como Íñigo Errejón, Juan Carlos Monedero, Carolina Bescansa e Luis Alegre, mas vários dos fundadores saíram do partido com críticas a Iglesias.

O objetivo do novo grupo era "assaltar os céus", como Iglesias gostava de dizer, recordando uma expressão de Karl Marx, e passar os socialistas (PSOE) para se tornar numa referência para a esquerda espanhola.

Em 2015, com um ano de vida, o Podemos entrou na política espanhola e, juntamente com outros grupos de esquerda, ganhou 69 dos 350 assentos no Congresso, impulsionado por muitos eleitores desapontados com o PSOE.

A meta era romper o sistema bipartidário tradicional formado por PSOE e PP, mas foi perdendo fôlego em eleições sucessivas. No entanto, em 2020 conseguiu o objetivo desejado: entrar no Governo espanhol, após duras tensões com o partido socialista e o seu líder, Pedro Sánchez.

A passagem pelo Governo teve pouco equilíbrio de gestão, de acordo com os seus críticos, e tensões internas com o PSOE, que frequentemente chegavam às primeiras páginas dos jornais.

Convicto de que o papel do Podemos era fazer frente aos socialistas para defender as políticas sociais, Iglesias envolveu-se em diversas disputas com o partido durante o seu ano como vice-presidente: sobre o orçamento, as leis da igualdade, os escândalos da monarquia e a revogação da reforma laboral.

Após a convocatória de eleições em Madrid, e com a perspetiva de que o Podemos teria maus resultados, Iglesias decidiu deixar o gabinete e se candidatar às eleições, bastante polarizadas, tornando-se no principal alvo da candidata do PP, Isabel Días Ayuso.

Com a "consciência absoluta de se ter tornado um bode expiatório que mobiliza os afetos mais sombrios e antidemocráticos", Iglesias decidiu deixar todos os seus cargos, embora tenha dito que "vai continuar empenhado" com ideias e colegas.

Habituado às reviravoltas dramáticas, o até então líder do Podemos ainda não revelou o seu próximo destino.

Por Antonia Méndez Ardila