EFELisboa

Portugal deixava para trás uma brutal crise quando os socialistas chegaram ao poder em 2015 com o seu "milagre" económico, um modelo cada vez mais questionado, sobretudo depois da pandemia ter destapado problemas como a excessiva dependência do turismo ou a fragilidade dos serviços públicos.

Desde a superação da austeridade herdada da troika até ao fracassado orçamento para 2022, com uma crise económica e social com a pandemia pelo meio, os seis anos de gestão socialista submetem-se este domingo ao escrutínio dos portugueses.

E os especialistas asseguram que o bolso será um fator de importância nas urnas.

DA AUSTERIDADE AO "MILAGRE"

"Virar a página da austeridade". Foi uma das frases mais repetidas pelo líder socialista e primeiro-ministro, António Costa, antes das eleições de 2015 e durante os seus primeiros anos de Governo, na promessa de acabar com o aperto imposto pela troika durante o resgate (2011-2014).

A saída "limpa" desse programa, com um excedente das contas externas, permitiu aos socialistas "implementar políticas menos austeras e até expansionistas em termos de rendimentos e pensões", explica à EFE Aurora Teixeira, professora da faculdade de Economia do Porto.

Os socialistas, apoiados pela esquerda, no pacto batizado como "geringonça", reverteram os cortes salariais, descongelaram as carreiras, revalorizaram pensões e reduziram os impostos aos rendimentos do trabalho.

Também aumentaram o salário mínimo, que passou de 505 euros em 2015 a 705, tudo enquanto Portugal se mantinha como um aluno responsável junto de Bruxelas, com disciplina nas contas públicas.

Além disso, apostaram no aprofundamento da internacionalização da economia.

O turismo disparou, assim como o investimento imobiliário estrangeiro -com uma estratégia de benefícios fiscais e vistos iniciada pela direita que os socialistas impulsionaram- e captou-se o interesse de grandes empresas, tais como a Google.

Foi uma transformação que as análises mais otimistas apelidaram como "milagre", mas agora crescem as dúvidas sobre se a estratégia foi tão providencial como pareceu.

UM MODELO COM MUITAS SOMBRAS

"Os ganhos da 'geringonça' conseguiram-se à custa de quedas muito substanciais no investimento público. Não houve nenhum milagre, a maior parte do tempo tiveram a 'camisa de força' do pacto de estabilidade e crescimento que obrigou a continuar a austeridade", assinala à EFE a politóloga Marina Costa Lobo.

Os números apoiam-no: a despesa em Saúde e Educação, dois setores marcados por vários protestos, caiu entre 2015 e 2019.

Em 2018, o investimento destinado ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi de apenas 4,3% do PIB, o mais baixo em 15 anos.

A economista Teixeira também não acredita que no "milagre" porque "as fragilidades estruturais da economia mantêm-se": baixa produtividade e baixos salários, precariedade, pobreza ou excessiva especialização no setor de serviços, sobretudo no turismo.

Debilidades que se tornaram ainda mais óbvias com a pandemia.

O CHOQUE PANDÉMICO

"Devastador" e "fortíssimo" é como o economista José Reis define o impacto da pandemia em Portugal, dado que a sua economia tinha "debilidades muito maiores".

Uma das mais evidentes é a sua dependência do turismo, que em 2019 representou mais de 15% do PIB.

Da descida de 8,6% registada em 2020, o turismo foi responsável por quase três quartos, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).

O crescimento do setor, impulsionado antes dos Governos de Costa, aconteceu em simultâneo de uma desindustrialização que também se revelou problemática.

"Foi uma economia que se desindustrializou demais e quando foi necessário recuperar capacidade produtiva nestas novas circunstâncias, não foi tão fácil", assegura o economista.

A pandemia também revelou as carências da saúde pública, que se tornou num dos temas da campanha. Em 2020 viu-se obrigada a aumentar o seu orçamento em 96% para enfrentar a crise sanitária.

Outro ponto preocupante são os baixos salários.

Apesar da recuperação dos níveis de emprego pré-covid e o desemprego estar em 6%, a precariedade laboral é clara: mais de 70% dos portugueses de até 34 anos ganham menos de 950 euros, segundo um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

O salário médio bruto está em aproximadamente 1.300 euros, depois de uma subida de 11% desde 2015 num país onde o preço da habitação subiu mais de 50% nestes seis anos.

A pandemia deixa outros números preocupantes. A pobreza chegou a 18,4% em 2020 -mais de 20% entre as crianças-.

O Governo que sair das urnas terá que enfrentar o desafio de investir os 16.600 milhões do plano de recuperação europeu para atenuar as debilidades estruturais que ainda afetam Portugal.

Por Paula Fernández