EFELisboa

Mamadou Ba chegou há 23 anos vindo do Senegal, habituou-se a receber ameaças e nestes dias tem estado novamente no meio de uma tempestade política que reabriu as feridas do passado colonial português.

O centro da polémica é a controversa figura do tenente-coronel Marcelino da Mata, nascido na Guiné, que lavrou a sua carreira militar na guerra colonial -durante a ditadura portuguesa- e que faleceu no passado dia 11 aos 80 anos vítima de covid-19.

A Guiné proibiu a entrada no país do criador da tropa de elite do Exército português e o militar mais condecorado de Portugal. No funeral estiveram várias personalidades, entre as quais o presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

A tempestade começou depois de Ba o ter definido nas redes sociais como "um criminoso de guerra que não merece qualquer respeito", um "fascista" e uma "figura sinistra da história portuguesa".

A reação foi imediata. Cerca de 15.000 pessoas assinaram uma petição pública virtual para pedir a deportação de Ba, dirigente da SOS Racismo Portugal.

PASSADO COLONIAL

"Não é a primeira vez que recebo ameaças, recebo-as há muito tempo", denuncia Ba, que adverte de que "qualquer dia podemos voltar a um passado sinistro em que ativistas são linchados por lutar pela igualdade e dignidade".

No passado verão, Ba recebeu uma mensagem de um grupo desconhecido que o assinalava como alvo. Semanas depois a ameaça chegou acompanhada de um cartucho de bala.

Também Beatriz Dias, deputada do Bloco de Esquerda de origem senegalesa, recebe ameaças através das redes sociais: "Com comentários racistas, a pedirem-me que volte para a minha terra, que sou incompetente ou que devo deixar de ser deputada".

Em Portugal residem cerca de 890.000 imigrantes, 8,63% da sua população, segundo dados da ONU, a maioria procedentes de países africanos, como Angola ou Guiné-Bissau, e a sua cultura coexiste com a portuguesa há vários séculos devido a um passado colonial que, assinala à Efe a investigadora Sílvia Maese, é parte do problema.

"A sociedade portuguesa, como outros estados coloniais, está atravessada pelo racismo na sua estrutura", explica Maese, que denuncia que o racismo "é uma constante na vida das pessoas negras".

As crianças "crescem numa sociedade que valoriza o inglês ou o francês e desaprova o crioulo", aponta Anabela Rodrigues, advogada e ativista.

"É preciso reconhecer que existe racismo em Portugal, acabar com a ideia de que é um tabu", pede Ba.

DISCURSO DA EXTREMA-DIREITA

Os ativistas relacionam o aumento do discurso racista com a ofensiva do partido de extrema-direita Chega, que obteve 11,9% dos votos nas eleições presidenciais de janeiro que revalidaram Marcelo Rebelo de Sousa no cargo.

A mensagem do Chega é "repugnante e aprofunda sentimentos de ódio e divisão", lamenta Dias, ressaltando ainda que, embora "a estigmatização das comunidades racializadas já existia na sociedade portuguesa", com a entrada deste partido na Assembleia, o discurso "amplificou-se" porque "agora há um representante institucionalizado".

"Estamos há mais de 20 anos a dizer que há extrema-direita em Portugal, que não era algo circunstancial", destaca Ba, que descreve o Chega como "um megafone institucional do racismo comum".

"É uma ameaça não só para as pessoas negras mas também para a democracia, porque não é possível democracia com desigualdade", ressalta Ba em declarações à Efe. "O racismo mata, não é só um insulto, tem consequências trágicas", adverte.

MUITO CAMINHO POR PERCORRER

Em 2019, Portugal registou 436 queixas por racismo, segundo dados da Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial (CICDR), mais 26% que no ano anterior, e confirmou uma tendência há seis anos a crescer.

Contudo, ganhou-se terreno nos últimos 20 anos, algo refletido na presença de afrodescendentes no espaço público e no debate político, mas ainda falta um longo caminho por percorrer.

"A principal mudança que vejo é a possibilidade de falar sobre a riqueza de ser africano", ressalta Rodrigues à Efe. "Portugal começa a assumir que tem uma dívida com os afrodescendentes".

Destaca também a maior "capacidade" do movimento antirracista de "colocar no espaço público" questões raciais.

O primeiro passo é "reconhecer que existe racismo em Portugal", defende Ba, porque apenas assim se vai conseguir "sair da negação do racismo, sair da ideia de que falar do racismo é dizer que todo o mundo é racista".

Depois, há que "criar um programa antirracista, transformar as reivindicações em medidas políticas concretas", continua.

"Há que apostar pelo futuro, mais que pelo combate antirracista, para que no dia de amanhã ninguém possa ser tratado de uma forma desigual".

Por Andrea Caballero de Mingo