EFE

Pequim

Um aumento considerável da presença militar da China no Estreito de Taiwan e a utilização de táticas de guerra híbrida contra Taipé são as consequências mais prováveis da fugaz e controversa visita a Taiwan da presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, na quarta-feira.

"Esta crise acelera a perceção de que o risco de conflito na década atual é cada vez mais alto. A China sabe que Taiwan não é apenas essencial para o seu processo de modernização, como é também a machadada com a qual poderia pôr fim à hegemonia dos EUA na região e no mundo", disse Xulio Ríos, diretor do Observatório da Política chinesa, à Agência Efe.

Menos de 24 horas após a visita de Pelosi, o exército chinês iniciou manobras militares com fogo real à volta da ilha, que incluiu o encerramento do espaço aéreo e marítimo em várias áreas, algo que Taipé descreveu como um "bloqueio".

Além disso, na semana passada, a China impôs sanções comerciais a centenas de produtos alimentares de Taiwan, entre os quais os citrinos ou vários tipos de peixe, entre outros.

DE BANDEJA

Na opinião dos especialistas, Washington não fez mais que servir de bandeja a Pequim os argumentos para aumentar a pressão militar sobre Taiwan, um território sobre o qual a China reivindica a soberania e que considera uma província rebelde desde que os nacionalistas do Kuomintang se retiraram para lá em 1949 depois de terem perdido a guerra civil contra os comunistas.

"Pode esperar-se que a China tente explorar a crise de duas maneiras: primeiro, incentivar medidas militares e políticas que reforcem a soberania reivindicada sobre a ilha, que podem incluir ações mais empenhadas dos seus militares por via aérea e marítima, afetando o espaço aéreo de Taiwan ou a linha média do Estreito que têm sido respeitadas até agora", salientou Ríos.

De facto, o Ministério da Defesa de Taiwan denunciou hoje uma nova incursão de aviões chineses na sua Zona de Identificação da Defesa Aérea (ADIZ), a maioria dos quais terá cruzado a referida linha mediana.

HONG KONG COMO GUIÃO

Em segundo lugar, o perito ressalta que a China pode vir a "adotar medidas legislativas", tais como uma lei de unificação, ou um calendário específico para tal, e apontou o que aconteceu em Hong Kong nos últimos dois anos como "o guião para assumir o controlo da situação".

"Se lá (após os enormes protestos pró-democracia em 2019) não houve nenhum massacre repressivo, também não haverá nenhuma ação militar desproporcionada em Taiwan. Mas haverá uma reação qualitativamente significativa", disse.

Um ano depois dos protestos de Hong Kong, Pequim impôs uma Lei de Segurança Nacional na antiga colónia britânica, que na prática, de acordo com organizações internacionais, restringiu os direitos e liberdades fundamentais e levou à prisão de dezenas de ativistas e jornalistas.

"O que para Pelosi é uma ação simbólica, da qual se distanciaram membros do seu partido e possíveis simpatizantes dos EUA em Taiwan, oferece à China a oportunidade de dar mais uma volta no parafuso na ilha, afastando o fantasma de parecer fraca e aguçando a sua resposta", argumenta Ríos.

GUERRA HÍBRIDA

Entretanto, Shiany Pérez-Cheng, uma analista associada ao 'think tank' britânico Resilient Futures, disse à Efe desde Taipé que "as medidas que a China vai tomar contra Taiwan não vão ser de uma guerra convencional -o caso da Ucrânia-, mas sim de uma zona cinzenta com táticas de guerra híbrida".

Segundo esta especialista, isto significa "sanções contra as exportações, ciberataques e mais pressão crescente na arena internacional, incluindo um aumento da propaganda seletiva e operações de influência e coerção económica contra terceiros", a fim de continuar a tentar "asfixiar Taiwan", retirando-lhe o apoio de outros países.

As sanções, de acordo com Pérez-Cheng, procuram "virar os taiwaneses contra o seu Governo", embora tenha salientado que a ilha já tem experiência em lidar com este tipo de situação, especialmente após as sanções impostas às exportações de ananás para a China no ano passado, que pressionaram Taiwan a diversificar o seu mercado em direção ao Japão, Austrália e Europa.

Já Xulio Ríos destaca a economia como a chave para assegurar que nas eleições locais de Taiwan, em novembro, o eleitorado não castigue o governante Partido Progressista Democrático (PPD) pela sua "imprudência" em confrontar Pequim diretamente.

Mas o outro lado da moeda será a capacidade da China de "conquistar a opinião pública taiwanesa" para que "a crise não resulte num maior apoio eleitoral ao PPD".

Algo que se relaciona com a opinião de Pérez-Cheng de que a ilha estava "ciente de que a grande maioria da retaliação da China será contra Taiwan" e, por conseguinte, não "fez propaganda" oficial da possível visita da líder norte-americana antes desta aterrar em Taipé.

"Estamos provavelmente no início da quarta crise do Estreito de Taiwan (após as de 1954, 58 e 95-97) e haverá certamente consequências diplomáticas, económicas, militares e estratégicas que se vão dilatar no tempo", resume Xulio Ríos.

Por Lorena Cantó