EFELisboa

Assediada pela pressão judicial e policial em Espanha e França, o grupo terrorista ETA tentou transferir parte do seu aparato logístico-militar a Portugal, mas o desmantelamento da sua base em Óbidos (perto de Lisboa) em 2010 frustrou estes planos, levando-a a anunciar um ano depois o fim da sua atividade armada.

Esta é uma das conclusões do investigador português e especialista em terrorismo Diogo Noivo no seu livro "Uma história da ETA: Nação e Violência em Espanha e Portugal", que acaba de ser publicado e que percorre a história da organização e as suas relações com este último país.

Em 2010, a polícia portuguesa encontrou uma casa nos arredores de Óbidos, uns 90 quilómetros ao norte de Lisboa, com as portas abertas e com entre 1.300 e 1.500 quilos de explosivos.

Esta casa era conhecida nos meios de contraterrorismo de Espanha como "Cahors 2", em referência ao laboratório de explosivos encontrado anos antes nessa cidade francesa, um dos maiores do grupo, explica o investigador português à Efe.

"Tendo em conta que a ETA estava sob muita pressão em Espanha e França e que o tipo e quantidade de material apreendido em Óbidos é muito semelhante ao encontrado em Cahors e outros sítios, dá-nos a sensação de que a ETA estava a começar a transferir uma parte do seu aparato logístico-militar a Portugal", assegura.

O desmantelamento da casa de Óbidos foi um duro golpe para uma ETA que já vivia momentos complicados: Espanha e França prendiam membros do seu topo, cercavam a sua liderança e desmantelavam outras caches do grupo.

"Quando a casa de Óbidos é desmantelada, a ETA já não tem capacidade de liderança, nem logística, nem nada, para reconstruir a sua base", assinala Noivo.

Em 2011 anunciou o fim da atividade armada. Em 2018, a sua dissolução, depois de mais de quatro décadas de violência.

Mas Óbidos é apenas o culminar da presença da ETA em Portugal.

ANTIGAS RELAÇÕES

As relações com Portugal remontam a finais dos anos 60, quando a Liga de Unidade e Ação Revolucionária (LUAR) portuguesa ajudou a ETA a adquirir armas na Checoslováquia.

Em meados da década de 70, com a recuperação da democracia em ambos países, o grupo estabeleceu relações com as Forças Populares 25 de Abril (FP-25), uma organização portuguesa que operou entre 1980 e 1987.

Mas foi após a assinatura do pacto antiterrorista entre o Partido Popular e o Partido Socialista Operário Espanhol (2000) quando aparecem os "primeiros sinais da ETA em Portugal", diz Noivo.

Documentação apreendida ao grupo -que o investigador consultou- revela que os atentados perpetrados em 2002 em Fuengirola (Málaga) e Santa Pola (Alicante) foram reivindicados desde Lisboa.

Em 2006 foram identificados dois etarras no Bairro Alto, em Lisboa, provavelmente em trabalhos de reconhecimento, e em 2007 descobrem em Espanha dois carros com matrículas portuguesas utilizados pelo grupo terrorista.

Estas descobertas fizeram soar alarmes na Polícia Judiciária portuguesa e no Departamento Central de Investigação e Ação Penal da Procuradoria portuguesa, mas não nos responsáveis políticos, que consideravam o ocorrido como "episódios".

"Embora os políticos não valorizassem as ameaças, as boas relações que existiam entre espanhóis e portugueses no plano policial permitiram que houvesse bons resultados no combate à ETA", defende Noivo.

ÓBIDOS, O TESTE FINAL

Esses resultados foram vistos em Óbidos, onde em fevereiro de 2010 foi encontrada uma base da ETA. Um mês antes, dois membros do grupo fugiram de um controlo policial em Zamora e cruzaram a fronteira com Portugal, onde acabaram por ser detidos e depois extraditados.

Em Espanha ficou uma carrinha com 10 quilos de explosivos e outro material utilizado para atentados que, segundo investigações posteriores, transportavam para Óbidos.

Com as duas detenções, a atenção sobre a ETA no país cresceu, assim como o medo de serem descobertos por parte de outros membros do grupo terrorista basco, Andoni Zengotitabengoa Fernández (alias Elorri) e Oier Gómez Mielgo, que habitavam numa casa em Óbidos.

Acabaram por abandoná-la à pressa, deixando as portas abertas e as luzes acesas.

Quando um vizinho denunciou às autoridades que a casa estava há três dias nessas condições, a Guarda Nacional Republicana -equivalente à Guardia Civil espanhola- entrou na casa, encontrou os explosivos e a estadia do grupo em Portugal chegou ao fim.

DETALHES POR CONHECER

Diogo Noivo acredita que ainda há coisas para descobrir sobre as relações da ETA com Portugal, especialmente com as FP-25, um grupo terrorista de extrema-esquerda cujos atentados, aponta o especialista português, deixaram 17 vítimas mortais nos anos 80.

"Sabemos que houve membros das FP-25 que estiveram no País Basco sob proteção da ETA, que a ETA deu armas e explosivos às FP-25, que a liderança política da FP-25 tinha relações próximas da ETA e Herri Batasuna e que membros da ETA estiveram no congresso que fundou o braço político das FP-25. Mas no fundo dessa relação ainda ficam coisas por descobrir", conta.

No final, conclui, a ETA tentou sempre procurar em Portugal "o que não encontrava noutros sítios".

Por Paula Fernández