EFELisboa

Numa época com as viagens reduzidas ao mínimo, estrangeiros reformados ou em teletrabalho encontraram em Portugal um refúgio para passar a pandemia, atraídos pela segurança que o país lhes desperta quanto ao vírus e em alojamentos tão díspares como resorts de cinco estrelas ou autocaravanas.

A maioria são europeus, embora também haja casos dos Estados Unidos, Canadá e até Irão. Chegam atraídos pelo clima e a costa e estão há meses em Portugal, onde dizem que se sentem "seguros".

Nem a severidade da terceira vaga nem o confinamento que mantém o país a meio gás desde meados de janeiro os fez mudar de ideia.

MUDANÇA DE ARES

A vida de Anne Lemonnier mudou em março de 2020 e não só pela pandemia. Esta francesa residente em Londres foi diagnosticada com um cancro e teve de passar muito tempo no hospital enquanto a covid-19 revolucionava tudo.

Com o tratamento superado, quis uma mudança de ares e foi para o Algarve, onde comprou uma casa no resort Pine Cliffs.

"Decidi reconsiderar completamente o meu modo de vida", explica desde o sul de Portugal, a onde chegou a 20 de dezembro, no último voo antes do fecho das ligações com o Reino Unido.

Não tem pressa para voltar. "Não me considero uma turista, mas sim uma residente", assinala a francesa, que se dedica à consultoria e teletrabalha desde Portugal, como a maioria dos hóspedes de longa duração do Pine Cliffs Resort.

Este complexo de Albufeira recebeu cerca de uma centena de reservas de estadias de longa duração durante a pandemia.

DO IRÃO A PORTUGAL

Noutro resort do mesmo grupo, o Sheraton Cascais, as estadias de longa duração -com médias de 6 meses- representam 60% do negócio. Como a de uma família iraniana que chegou em novembro e não pensa sair até que a pandemia passe.

"Estou em Portugal para ter uma vida melhor e mais segura", conta Mohsen Haydari, um empresário do mármore que está com a sua mulher e os três filgos em Cascais.

A sua visão não mudou com a terceira vaga, que atingiu com violência a região de Lisboa e Vale do Tejo, onde está Cascais.

"As vagas vão e vêm. O importante é o comportamento do Governo e das pessoas. E o que vi é que respeitam as regras e as precauções", disse.

Mohsen gere a sua empresa desde lá e os seus filhos continuam com as aulas de universidade e escola por internet.

MAIS LIBERDADE NA MADEIRA

O arquipélago da Madeira salvou-se do confinamento graças à sua melhor situação epidemiológica, embora não do golpe ao turismo, sobretudo devido às restrições aéreas.

"Temos uma ocupação muito baixa", assinala à Efe Fabíola Pereira, administradora do PortoBay, um grupo com sete hotéis e resorts. As longas estadias representam metade dos seus hóspedes, pessoas que teletrabalham e reformados, especialmente ingleses, alemães e luxemburgueses.

No hotel Porto Mare estão Bob e Chris Langstaff, um casal inglês que visita a ilha há 26 anos e chegou a 14 de dezembro. Não sabem quando poderão voltar, mas não estão preocupados.

"Não há voos. Estamos retidos neste sítio maravilhoso", conta Chris, que se sente "muito mais segura" lá, onde estão até a dar aulas de português.

Bob concorda: "As autoridades estão a fazer um bom trabalho para manter a segurança", com testes no aeroporto e quarentenas obrigatórias.

No hotel Les Suites há outro casal de reformados ingleses, David e Angela Banfield, que chegou em dezembro e que costuma passar os invernos na Madeira à procura de bom tempo.

"Este ano há uma razão extra, a situação da covid no Reino Unido", explica David, que relata que na ilha "todos são muito disciplinados". A pioria da situação em Portugal continental não o preocupou, pois "é quase como outro país".

O único mal de não estar em casa, a vacina: "Como tenho 85 anos e a minha mulher 79, com sorte já nos tinham vacinado se estivéssemos no Reino Unido. Mas não nos preocupa porque a taxa de infeções aqui é muito baixa".

UMA CASA SOBRE RODAS

Outros decidiram passar a pandemia em Portugal numa autocaravana, uma "bolha" que lhes permite distância social.

É o caso de Martyn e Isabel, um casal do Reino Unido que passa os invernos a viajar pela Europa.

A pandemia apanhou-os em março de 2020 no Algarve, onde encontraram uma área para autocaravanas em Tavira que os permitiu ficar, acabando por passar outras 14 semanas em Portugal. Gostaram tanto da experiência que, meses depois, estão no mesmo sítio.

"Portugal era o lugar mais seguro da Europa. Sentíamo-nos muito seguros onde estamos", conta Isabel desde o Algarve Motorhome Park de Tavira.

Em outubro voltaram a deixar o Reino Unido e chegaram rapidamente a Portugal, em vez de passarem semanas em França e Espanha, como habitualmente, por medo do fecho de fronteiras.

Ainda não querem voltar porque Portugal está na "lista vermelha" e teriam que fazer quarentena num hotel e assumir os custos. Quando regressarem, planeiam sair com duas semanas de antecedência e evitar essa experiência.

Dee e John, de Worcestershire, estão na mesma área de autocaravanas há três meses. Ela trabalha num escritório e ele é mecânico, mas passam metade do tempo a viajar.

"Quando viemos, o risco era mais baixo e era o sítio mais seguro", explica Dee, que ainda não sabe quando irão sair porque Portugal se tornou no seu "lugar favorito no mundo" graças ao bom tempo, às pessoas e ao custo de vida.

A ocupação nas três áreas para autocaravanas do Algarve Motorhome Park é baixa, variando entre 15% e 60%, relata a responsável do estabelecimento em Tavira, Carina Pereira.

A maioria são reformados, sobretudo franceses, ingleses ou alemães.

Todos encontraram em Portugal o seu refúgio pandémico.

Por Paula Fernández