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Representantes da comunidade portuguesa da Venezuela pediram este domingo ao ministro dos Negócios Estrangeiros do seu país, Augusto Santos Silva, ajuda perante as ações do Governo venezuelano contra os supermercados -muitos deles de propriedade lusa-, aos quais obrigou este fim-de-semana a vender os seus produtos com preços muito mais baixos.

"Hoje não sei se estamos ou não falidos. Fomos obrigados à força a vender a maioria do nosso 'stock' com 50% de desconto, mais ou menos, sem nenhum tipo de argumentação", disse ao ministro o luso-venezuelano Lisandro Rodrigues, de uma das empresas afetadas.

Rodrigues -que falou com Santos Silva durante um encontro do político com a comunidade portuguesa em Caracas- denunciou "gritos e ameaças" dos funcionários venezuelanos para que desçam os preços, e explicou que alguns comerciantes foram presos no marco das operações do Governo contra as lojas.

Transmitindo as reivindicações de muitos dos que estiveram no domingo durante a noite no Centro Português de Caracas, o empresário deste setor liderado tradicionalmente pelos portugueses na Venezuela pediu ao ministro que transmita a sua preocupação ao chanceler venezuelano.

Santos Silva está na Venezuela desde este fim-de-semana e vai-se reunir hoje com o seu homólogo Jorge Arreaza.

O Governo chavista culpa comerciantes e empresários da situação de hiperinflação que a nação petrolífera atravessa, onde um salário mínimo mal chega para alimentar uma pessoa durante uma semana, apesar dos constantes aumentos decretados pelo presidente Nicolás Maduro.

Desde novembro deste ano, o Governo bolivariano desdobrou inspetores, guardas nacionais e polícias em lojas de todos os setores, aos quais obrigou a descer os preços para "garantir a felicidade do povo" e permitir o acesso aos produtos.

Este fim-de-semana foi a vez dos supermercados, e as descidas de preços forçadas -que frequentemente levam os comerciantes a vender com perdas- provocaram grandes filas e tumultos em vários estabelecimentos do país.

No seu discurso, Santos Silva alertou das consequências negativas destas práticas por parte do Governo chavista, ao qual apelou a proteger o pequeno comércio. O chefe da diplomacia portuguesa assegurou que vai abordar o tema dos supermercados na sua reunião com Arreaza.

Entre os presentes na reunião havia vários comerciantes e vendedores de retalho, que manifestaram a sua esperança em que o ministro conheça a situação limite à qual lhes levam os controlos de preços, o racionamento de matérias-primas e outras políticas do Governo venezuelano.

O presidente do Centro Português, Rafael Gomes, criticou perante o ministro a "falta de apoio" e a "indiferença" de um Governo de Lisboa "que nunca se pronuncia" sobre os cidadãos portugueses que são "sequestrados, desapropriados dos seus negócios".

"Estamos cansados de discursos. Agradecemos as palavras, mas precisamos de ações", disse Gomes perante o aplauso emotivo do auditório.

Durante o ato, uma cidadã portuguesa pediu ajuda para um transplante de rim que já não se faz na Venezuela, e outra venezuelana de origem portuguesa pediu assistência para poder comprar uma pilha nova para o cardiodesfibrilador fundamental para a vida do seu marido, que ficará sem bateria "em poucos dias".

Segundo disse o ministro Santos Silva, na Venezuela vivem atualmente ao redor de meio milhão de pessoas de origem portuguesa.

A maioria dos imigrantes portugueses na Venezuela provêm da ilha da Madeira, e chegaram ao país à procura de uma vida melhor entre as décadas de 1950 e 1970.

Marcel Gascón Barberá