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Em apenas três meses, o modo de vida de pessoas de todo o mundo mudou radicalmente, e muitas adaptações precisaram de ser feitas no dia a dia para enfrentar a pandemia de coronavírus. O mundo do desporto, que não escapou das mudanças, tem vindo a debater os melhores rumos a serem tomados para o regresso dos atletas a treinos e competições.

O choque psicológico que os atletas poderão sofrer no regresso ao trabalho após várias semanas em confinamento é um dos possíveis obstáculos desse "novo normal".

Sujeitos a certos hábitos, os atletas devem reforçar a preparação mental para retomar a antiga rotina, ou o mais perto possível do que era, segundo o psicólogo desportivo espanhol Oriol Mercadé, doutor em Ciências do Desporto e Saúde pela Universidade Ramon Llull (Barcelona).

Mercadé analisou para a Agência Efe quais são os principais desafios que os profissionais terão que enfrentar nos seus primeiros treinos e competições e quando o público regressar às sedes desportivas. Na prática, terão que combater uma espécie de 'jet lag'.

"Será difícil colocar o corpo e a mente novamente em foco. É muito diferente fazer um treino todos os dias do que ver Netflix e conversar pelo Whatsapp. É muito custoso. Eles vão achar difícil focar no que o treinador está a dizer ou na ação. O cérebro habituou-se a vaguear sem nenhum tipo de foco", disse.

Para o especialista, preparar psicologicamente os atletas antes de retomarem as atividades poderia ser muito útil. Fazer "visualizações" ou "controlo do pensamento" após uma quebra completa da rotina iria ajudá-los a voltar ao trabalho de uma só vez.

Atualmente, os atletas com quem Mercadé trabalha entram nessa fase de visualização. Ou seja, trabalham mentalmente as ações que vão realizar para que os seus cérebros completem as conexões neurais quando fazem um movimento.

"Eles já pensam em entrar no ginásio ou chutar uma bola. Durante este mês, eu treinei-os para fazer um trabalho mental de imaginação, e agora estamos em execução. Eles têm que fechar os olhos como se fosse quase uma hipnose, fazer o treino guiado. Quando fazem isso, o corpo é como se tivesse sido treinado, e será mais fácil recuperar as sensações do que os 98% dos atletas que saltam para a piscina sem ter feito esse processo anterior", analisou.

Mas o impacto será o mesmo para todos os tipos de desporto? De acordo com o psicólogo, a resposta é "não". Uma das razões é a ausência de público, que tem muita influência em alguns desportos, como o futebol, que viverá um cenário de jogos à porta fechada.

"A nível mental, uma casa cheia ou estádio para um jogador de futebol pode ter 30% do impacto no seu nível de ativação. Por outro lado, para um ciclista, menos pessoas na estrada pode não ser tão relevante", disse Mercadé.

NOVA ERA NA RELAÇÃO ENTRE ATLETAS E ADEPTOS

Sem dúvida, a ausência desses adeptos, que pode ser um choque para os atletas, também terá uma grande influência no novo relacionamento com eles. O contato será mínimo, quase inexistente. Muitas situações antes normais, como dar autógrafos, ser recebido ao sair do autocarro a caminho do estádio ou simplesmente celebrar os golos com o público não vão acontecer por um bom tempo.

Em primeiro lugar, por causa do protocolo. Em segundo, porque entre os próprios atletas pode haver algum tipo de barreira psicológica que os impeça. Em relação ao primeiro aspecto, o presidente da Associação Espanhola de Médicos de Futebol (AEMEF), Rafael Ramos, disse que os contatos, até o regresso à normalidade, dificilmente vão acontecer.

"Hoje em dia, essas situações são impensáveis. Sempre disse que, se voltarmos a uma competição, será diferente. Se me perguntar como será dentro de quatro ou cinco meses, na próxima temporada da Liga espanhola, digo que dependerá muito da situação epidemiológica que tivermos nos países", disse à Efe.

Também não será possível ver imagens como as da festa dos adeptos do Valência para receber a equipa antes do jogo contra o Atalanta, no dia 10 de março, dos oitavos de final da Liga dos Campeões. Mesmo à beira do estado de alarme em Espanha, num jogo à porta fechada, centenas de pessoas se reuniram ao redor do estádio Mestalla para receber o autocarro da equipa.

"O acesso vai ser totalmente controlado. Essas imagens, esse formato que tínhamos do futebol há dois meses, não voltará. Pelo menos não agora. E o campeonato que está por vir, receio que se as coisas não mudarem muito, vamos ter que esquecer isso", disse Ramos.

Mercadé também traça uma linha psicológica em relação ao público que é difícil para os profissionais compreenderem. Para ele, veremos uma nova forma de relacionamento entre atletas e adeptos.

"O tempero do desporto de elite é essa mistura com o povo. Isso dá-lhes vida. No início, eles (atletas) terão que processar (o "novo normal"). Talvez isso de bater as mãos (nas de um colega de equipa ou fã) e se deixar levar pela euforia seja muito difícil. Haverá momentos em que vão querer compartilhar alegria com as pessoas, mas terão que pensar: 'cuidado, não'. Vamos ver uma maneira de celebrar os golos com as pessoas. Do público para os jogadores e dos jogadores para o público. Será muito difícil ver um golo e um jogador correr para os adeptos de seguida", acrescentou.

Para Juan José Pérez Toledano, médico do Estudiantes -equipa espanhola de basquetebol- e presidente da Associação Espanhola de Médicos de Basquetebol (AEMB), a relação entre o público e os profissionais é uma questão complicada de ser respondida agora.

"A princípio, (os jogos serão disputados) à porta fechada. Por quanto tempo? Vamos ver de acordo com a evolução da pandemia. O problema não vai acabar até que haja uma vacina eficaz. Um estádio de 80 mil pessoas pode ser uma 'bomba biológica' se não for bem controlado", alertou.

MAIS CUIDADO EM LOCAIS FECHADOS

Ramos e Pérez Toledano defendem que o trabalho de limpeza e desinfeção seja rigoroso em locais de treinos e competições.

"Absolutamente qualquer percurso que um atleta ou a comissão técnica tiver que fazer terá que ser esterilizado. Qualquer um desses locais deverão cumprir as normas de segurança para desinfeção", salientou Ramos.

CONFERÊNCIAS DE IMPRENSA POR VIDEOCHAMADA

A imprensa, que tem um papel importante no relacionamento com os atletas, será menos presente, fisicamente, de acordo com os especialistas, pelo menos nas competições a serem concluídas. O contato com os jogadores deve ser evitado e, embora ainda não exista uma regra específica, é possível que as conferências de imprensa sejam realizadas por videochamada.

"O contato será mínimo. Ainda não se pensou nisso. Mas, além disso, acho que não serão autorizadas tantas credenciais quanto antes. Não se verá mais 80 credenciais num só jogo. Será limitado. Todos nós temos muito em jogo, e quanto mais controlada for a situação, melhor", opinou Ramos.

VÁRIOS TESTES DE CONTROLO

Antes de tudo, é preciso dar um primeiro passo: atletas, treinadores ou outros funcionários de clubes devem-se submeter a testes para que se descubra se estão ou não infetados com o coronavírus.

"Será necessário repeti-los de tempo a tempo. Todos os dias, o atleta deve avaliar o seu próprio estado de saúde. A ideia é que todos os dias o atleta ou a pessoa que vai às instalações tenha a temperatura medida antes dos treinos", explicou Toledano.

As autoridades vão precisar de tomar muito cuidado para garantir que os jogadores cheguem "limpos" aos primeiros treinos. Por mais que mantenham o risco em mente fora das competições, os atletas poderão esquecer-se a certa altura.

"Desporto é repetição e automatismo. Quando um jogador corre, ele muitas vezes não pensa racionalmente. Noventa por cento das ações são repetições automáticas. Isso torna-os bons. Se um jogador faz coisas sem pensar, ele não vai pensar na distância social. Ele vai abraçar, tocar... Acho que vai ser quase impossível seguir isso. Pode haver controvérsia, porque serão chamados de irresponsáveis, e quando se virem na TV, vão-se perguntar por que o fizeram. A resposta é que eles nem sequer pensaram sobre isso", argumentou Mercadé.

Esse é um último exemplo de como o mundo do desporto vai lidar com o mundo pós-pandemia. Há muitas mudanças que precisarão de ser enfrentadas. Psicologia, limpeza, locais, segurança e até mesmo relacionamentos pessoais serão todos adaptados aos novos tempos.

Voltar à normalidade antes da crise gerada pelo coronavírus vai exigir um período de transição em que muitos costumes terão que ser repensados, e outros, criados.

Por Juan José Lahuerta