EFECaracas

Uma nova regulamentação para a compra de alimentos, baseada em documentos de identidade, despertou esta quarta-feira na Venezuela o receio de uma nova fase de escassez de recursos no estado de Miranda, que engloba grande parte da região da capital Caracas, a única do país onde está a ser aplicada oficialmente uma medida para conter a pandemia de coronavírus.

"Não me quero lembrar disso (...) não quero voltar a esse tempo", disse o reformado Octavio Moreno à Efe sobre a falta de alimentos e medicamentos básicos que o país sofreu de 2014 a 2017.

Moreno vive no bairro de Palo Verde, vizinho de Petare, a maior favela da Venezuela e onde vivem muitos dos moradores da capital. O reformado afirmou que em 2016, quando a escassez foi sentida fortemente em todo o país e as compras foram organizadas de acordo com os documentos de identificação, passava muito tempo em longas filas, várias vezes por semana, para comprar alguns quilos de farinha de milho -a base de muitos pratos típicos na Venezuela-, arroz e o que fosse possível de proteína animal.

DÉJÀ-VU

Quando o governador do estado de Miranda, Hector Rodriguez, anunciou na terça-feira que as compras de alimentos seriam novamente organizadas através do documento de identidade, como foi o caso durante a escassez, Moreno disse que teve um déjà-vu.

Também está convencido de que um novo período de escassez seria pior desta vez, porque, além da falta de alimentos, há o "fator pandemia".

"Isso vai trazer mais filas e fazer com que a pandemia se espalhe mais rápido, porque as pessoas vão ficar coladas umas nas outras (nas filas dos mercados)", comentou.

Porém, o Governo regional disse na terça-feira que tomou a medida em vista do aumento dos casos de COVID-19 nas últimas semanas e para evitar a aglomeração em supermercados e lojas.

A regulamentação será mantida por um período de 30 dias que pode ser prolongado, e o não cumprimento "resultará nas multas e penalidades estabelecidas por lei", segundo o texto, que não as especifica.

DEFESAS SOB MEDIDA

Já para o empresário Abel Abdell, de 62 anos, residente do distrito de Chacao, também parte do estado de Miranda e da área urbana de Caracas, a regulamentação é positiva.

"Esta é uma das melhores medidas que o Governo nacional tomou. Não há filas, pode entrar, comprar, pagar e sair com paz de espírito. Esse decreto para mim é fenomenal e está a proteger o povo da pandemia", afirmou.

Duas pessoas que o ouviram fazer essa declaração à Efe do lado de fora de um supermercado que costumava estar lotado de clientes, mas que nesta quarta-feira estava vazio, criticaram-no por defender a medida e o Governo.

"Não estou a defender ninguém, estou a defender a realidade", disse Abdell aos dois.

"NÃO TEMOS PESSOAS MORTAS NAS RUAS"

O empresário ressaltou que os venezuelanos devem seguir as recomendações de segurança da Organização Mundial da Saúde (OMS) para evitar um aumento de casos do novo coronavírus como os que aconteceram no Brasil e no Peru.

"Aqui ainda estamos bem, não temos muitas pessoas contagiadas, não temos pessoas mortas nas ruas", comentou.

Até terça-feira, 16.571 pessoas tinham contraído COVID-19 na Venezuela, e o Governo estima que 7 em cada 10 infetados são assintomáticos. Pelo menos 151 pessoas morreram da doença, segundo dados oficiais, e 205, de acordo com o cálculo da oposição ao Governo de Nicolás Maduro.

Por Ron Gonzalez