EFELisboa

Com um século de história às costas, o partido no ativo mais antigo de Portugal, o Partido Comunista Português (PCP), vai chegar às urnas a 30 de janeiro imerso num debate sobre a renovação geracional, acelerado pelo estado do seu líder, de 74 anos, que se afastou da campanha devido a uma cirurgia de urgência.

Jerónimo de Sousa, secretário-geral desde 2004, será submetido esta quinta-feira a uma operação de urgência por uma estenose da carótida interna esquerda que o vai deixar fora de campo durante pelo menos dez dias.

Para substituir provisionalmente o seu carismático patriarca, o partido recorreu aos seus "Joões": João Oliveira, o seu líder parlamentar, e João Ferreira, candidato todo-o-terreno que já participou em seis eleições -europeias, municipais e presidenciais- nos últimos oito anos.

São dois dos rostos com mais presença mediática do partido e habitualmente apontados como candidatos mais fortes à sucessão. Além disso, são bem mais jovens: nenhum chega aos 45 anos.

Ambos foram elogiados como dois dos dirigentes com mais futuro no partido pelo próprio Jerónimo de Sousa, que na semana passada admitiu que poderá deixar o cargo antes do próximo congresso, em 2025.

Numa recente entrevista com a Agência EFE, realizada antes de se conhecer os problemas de saúde do secretário-geral, João Ferreira evitou pronunciar-se sobre a substituição na liderança.

"Quando surgir essa questão, que não será no imediato, existirão seguramente várias pessoas em condições de assumir essa responsabilidade", respondeu.

O PCP NÃO É PARTIDO PARA JOVENS?

Com a baixa do seu líder acelera-se o debate sobre a renovação geracional do partido comunista mais ortodoxo da Europa, com posições conservadoras em temas como a eutanásia -há dois meses votaram contra- e marcado pelo envelhecimento dos seus militantes.

Segundo as teses discutidas no último congresso do partido, 49% dos seus afiliados tinha mais de 64 anos em 2020, uma percentagem que aumentou relativamente ao evento anterior.

Paralelamente, o PCP tem caído no apoio: nas últimas legislativas perdeu um terço dos deputados, e para as de 30 de janeiro as sondagens auguram uma nova queda, que se junta também à perda de votos registada nas municipais do passado setembro.

Ferreira admite que há "preocupação" em aproximar o partido aos mais jovens, mas assegura que nos últimos anos se conseguiu atrair essa faixa etária.

"Não são ainda os (jovens) que seriam necessários, mas acho que ajuda a contrariar um pouco essa ideia que alguns tentam atribuir ao PCP de um envelhecimento inexorável ou um declive irreversível", assinala.

Embora a direção conte ainda com figuras históricas de idade mais avançada, a substituição geracional já começou em frentes como o Parlamento, onde o grupo comunista tinha no começo da legislatura uma média de idades de 43 anos, abaixo do total do hemiciclo (48).

JUVENTUDES COMUNISTAS EM CRESCIMENTO

Para essa renovação foi essencial o papel da Juventude Comunista Portuguesa (JCP), que nos últimos meses tem registado um aumento do interesse dos seus simpatizantes, assinala à Agência EFE Gonçalo Francisco, membro da Comissão Política da Direção Nacional.

"O rejuvenescimento do partido tem sido um objetivo importante. Não é de agora. Nos últimos congressos já se fez", assegura Francisco, que se juntou à JCP quando estava na faculdade, onde estudou Ciências Políticas.

As juventudes comunistas têm atualmente cerca de 7.800 membros, acima dos aproximadamente 5.000 que tinha em 2014, segundo dados recolhidos pela imprensa portuguesa.

Francisco assegura que sempre foi uma "prioridade" do partido incluir militantes da JCP e que este "valoriza muito" o papel da juventude para formar os comunistas do futuro.

Porque os jovens de hoje, assegura, mostram interesse pela política.

"Ter transportes, que não são suficientes, ou ser muito difícil sair de casa dos pais porque os arrendamentos são muito elevados... Todas essas coisas são política, e os jovens querem saber disso", termina.

Por Paula Fernández