EFEViena

É o peito de uma mulher sempre pornografia? Os algoritmos de várias redes sociais dizem que sim, ao censurarem grandes obras com nus de museus de Viena que, em protesto, expõem agora essas peças na plataforma OnlyFans, conhecida pelo seu conteúdo para adultos.

O Museu de História de Arte, o de História Natural, o Leopold e o Albertina participam nesta inusual denúncia deste novo tipo de puritanismo com uma conta na qual exibem obras de artistas como Rubens, Egon Schiele, Koloman Moser e Amedeo Modigliani, consideradas "pornográficas" pelo Facebook, Instagram e TikTok.

CENSURA À IDADE DA PEDRA

Até a Vénus de Willendorf, uma roliça escultura do Paleolítico de mais de 25.000 anos considerada um símbolo de fertilidade, sofreu com a censura dos algoritmos do Facebook em 2018, embora essa rede social tenha depois reconhecido o erro e pedido desculpas.

"Observamos há vários anos a tendência preocupante de que publicações artísticas com nudez sejam bloqueadas ou eliminadas das redes sociais. O OnlyFans parecia o canal perfeito para destacar esse problema", explica à Agência Efe Norbert Kettner, diretor do Gabinete de Turismo de Viena, que está por trás da iniciativa.

A publicação de nus tem sido um problema para os museus vienenses, já que plataformas como Facebook ou Instagram não censuram apenas o conteúdo, tendo chegado também a suspender temporariamente as suas contas.

"Descobrimos que o OnlyFans é a primeira rede social que não tem problemas com nudez. O que a torna a plataforma perfeita para mostrar arte com liberdade", acrescenta Kettner.

O OnlyFans, que permite a publicação de conteúdo sexualmente explícito, recebeu diversas críticas dos que consideram que promove a pornografia, oferecendo fotos e vídeos eróticos em troca de dinheiro.

DEBATE SOBRE CENSURA

"O que realmente queremos é inspirar uma discussão muito necessária sobre a censura nas artes e o facto de que não existe liberdade real para as artes nas redes sociais", afirma o responsável de turismo de Viena.

"Consideramos que não deve haver censura e muito menos uma determinada por um algoritmo que não pode ser responsabilizado pelas decisões tomadas", especifica.

Esta iniciativa surge após uma série de decisões polémicas de várias plataformas.

O Instagram disse em 2019 que a pintura de Rubens de "Hélène Fourment embrulhada em peles" -que mostra uma mulher nua- era "contra as normas da comunidade".

E no passado julho, o TikTok suspendeu a conta da Galeria Albertina depois da publicação de obras do fotógrafo japonês Nobuyoshi Araki, nas quais se mostrava seios femininos escurecidos.

O Gabinete de Turismo de Viena já criticou a censura em 2018 numa campanha publicitária realizada em Londres e Berlim com os nus austeros do expressionista Egon Schiele.

A iniciativa cobriu os seios e genitais que apareciam nas obras com uma faixa branca que dizia: "Lamento, 100 anos de idade mas ainda demasiado ousado para hoje. À arte a sua liberdade".

Agora, sob o slogan "Viena despe-se no OnlyFans", esses quatro museus e o Gabinete de Turismo dão o salto para esta polémica plataforma para fins educativos e de defesa.

Pelo preço de três dólares mensais, todos os interessados em apoiar esta campanha poderão aceder às "obras proibidas" por outras plataformas, que estão acompanhadas de um pequeno texto explicativo.

Além disso, na tentativa de promover o turismo cultural, os assinantes deste atípico perfil do OnlyFans poderão ganhar bilhetes para visitar os museus.

UMA GRANDE RESPOSTA

"Vimos uma grande resposta, muito positiva, à nossa campanha", afirma o responsável do Gabinete de Turismo, cujo número de seguidores no OnlyFans não para de crescer.

Mas Kettner volta a ressaltar que o centro da campanha é a crítica à censura, algo contra o qual os artistas lutam há séculos.

"Sempre advogámos pela liberdade da arte. Talvez não se goste de tudo o que se veja, mas isso não significa que se tenha que proibir. Isto corresponde com a tradição do movimento da Secessão de Viena e o seu icónico lema: 'A cada época, a sua arte. A cada arte, a sua liberdade'", conclui.

Por Alejandro Giménez