EFELos Angeles (EUA)

Era a noite para conhecer a herdeira de "Game of Thrones", mas, embora os Emmy virtuais tenham coroado "Sucession" como melhor drama e "Watchmen" como melhor minissérie, a grande vencedora foi "Schitt's Creek", que arrasou em todas as categorias de comédia.

Esta modesta série canadiana fez história ao levar para casa os prémios de melhor comédia, ator (Eugene Levy), atriz (Catherine O'Hara), ator secundário (Dan Levy), atriz secundária (Annie Murphy), melhor guião cómico (Dan Levy) e melhor realização numa comédia (Andrew Cividino e Dan Levy).

Nunca antes tinha uma série conseguido todos os prémios principais de comédia e nenhuma tinha levado tantos galardões numa só cerimónia dos Emmy.

Este foi o ponto final ideal para as seis temporadas de "Schitt's Creek", uma comédia sobre um adinheirado clã que se reinventa após a falência e cuja origem também está em família, já que os seus criadores são Eugene Levy e o seu filho Dan.

"A nossa série, no seu ponto central, tem os efeitos de transformação do amor e da aceitação. É algo que precisamos, agora mais do que nunca", disse Dan Levy sobre esta comédia, muito reconhecida pelo seu tratamento respeitoso para com a comunidade LGBT.

Eugene Levy aplaudiu o seu filho por ter tornado "Schitt's Creek" numa "celebração da inclusividade, um castigo à homofobia e uma declaração do poder do amor".

APUNHALAMENTOS FAMILIARES FRENTE A DRAGÕES

A despedida em 2019 de "Game of Thrones", a série mais premiada na história dos Emmy (59 estatuetas), deixou este ano o caminho livre para os candidatos a melhor drama, uma coroa que acabou por ir para a shakesperiana e viciante "Succession".

Esta série da HBO, sobre os apunhalamentos e traições de uma família com um conglomerado mediático, conseguiu sete prémios Emmy, entre os quais o de melhor ator (Jeremy Strong).

Além disso, Jesse Armstrong, o criador de "Succession", deu um dos discursos mais políticos do evento

"Quero não agradecer ao presidente Donald Trump pela sua horrível e não coordenada resposta ao coronavírus, quero não agradecer ao presidente Boris Johnson por fazer o mesmo no meu país (Reino Unido), quero não agradecer a todos os governos nacionalistas que estão a fazer o oposto ao que precisamos agora e quero não agradecer a todos os magnatas dos media que fazem tanto pelas pessoas no poder", afirmou.

"WATCHMEN", UMA BEM SUCEDIDA REFLEXÃO SOBRE O RACISMO

Estender no pequeno ecrã a legendária banda-desenhada de Alan Moore e Dave Gibbons parecia uma aposta muito arriscada, mas "Watchmen" da HBO confirmou na noite de domingo que foi uma das grandes sensações televisivas da temporada, e a sua explosiva e ambiciosa reflexão sobre o racismo nos EUA conseguiu-lhe o Emmy para melhor minissérie.

"Watchmen" era uma das grandes favoritas com 26 nomeações e acabou por ser a série mais premiada destes Emmy com 11 distinções, incluída a de melhor atriz de minissérie ou telefilme (Regina King).

"Tenham claro que o vosso foto nas próximas eleições conta", disse King, que vestiu uma camisola com a imagem da jovem afroamericana Breonna Taylor, que morreu após disparos da polícia.

Com uma história relacionada com o massacre racista de Tulsa (EUA) em 1921, "Watchmen" conseguiu conectar-se com as reivindicações antirracistas do movimento Black Lives Matter, que marcaram a atualidade americana nos últimos meses.

Damon Lindelof, o cérebro de "Watchmen" e responsável por outros fenómenos televisivos como "Lost" (2004-2010), dedicou o seu prémio às vítimas e sobreviventes daquele massacre de afro-americanos.

Além disso, Lindelof lançou um conselho a todos que trabalham em televisão: "Deixem de se preocupar pelo cancelamento da vossa série e pensem no que fazer para que a renovem".

TRIUNFO DA HBO, BOA ESTREIA DA DISNEY+

Impulsionada por "Watchmen" e "Succession", a HBO foi a companhia mais distinguida nestes Emmy com 30 prémios a partir de 107 nomeações, ultrapassando assim a Netflix, com umas impressionantes 160, que no final teve de se conformar com 21 galardões.

A Disney+ teve uma estreia notável, com oito prémios na sua estreia em televisão graças, sobretudo, aos sete reconhecimentos a "The Mandalorian" ("Star Wars").

Entre os outros novatos, a Apple TV+, cuja grande aposta, "The Morning Show", passou praticamente despercebida exceto pelo Emmy de melhor ator dramático secundário para o esplêndido Billy Crudup, que derrotou três candidatos de "Sucession" na sua categoria.

Por último, Jennifer Aniston, a grande favorita para o galardão de melhor atriz dramática pelo seu papel "The Morning Show", perdeu para Zendaya, cujo deslumbrante trabalho em "Euphoria" tornou-a na vencedora mais jovem desta categoria em toda a história dos Emmy (24 anos recém cumpridos).

Por David Villafranca