EFELisboa

Após cinco anos de gestão privada, o impacto da COVID-19 devolveu a TAP ao controlo do Estado português, que irá ter 72,5% do capital da companhia e injetar uma ajuda de 1.200 milhões de euros na companhia aérea bandeira do país.

Um acordo de última hora com acionistas privados impediu a nacionalização da empresa, mas ainda assim ficará sob controle público cinco anos após a sua polémica privatização. O seu capital ainda vai contar com alguma presença privada: 22,5% permanecem com o empresário português Humberto Pedrosa, e 5% com os funcionários da empresa.

O próximo passo será um plano de reestruturação para tornar a companhia aérea "viável", que o Governo do socialista António Costa classifica como "estratégica".

SÍMBOLO COM 75 ANOS DE VIDA

Fundada em 1945, em pleno Estado Novo de António de Oliveira Salazar, a TAP é uma das principais empresas portuguesas e tem um peso significativo na sua economia: emprega mais de 10.000 pessoas, gasta 1,300 milhão de euros em compras de empresas nacionais e contribui com 300 milhões de euros para os cofres públicos através de impostos e taxas da segurança social.

Segundo dados da própria companhia, em 2018 contribuiu com 3,500 milhões de euros para a economia portuguesa -incluindo o impacto direto dos turistas que transportou- o que representa cerca de 1,7% do PIB português.

A TAP esteve sob controlo estatal durante a maior parte da sua trajetória: nasceu como um serviço público, foi gerida por uma sociedade anónima -embora com uma forte presença estatal- entre 1953 e 1975 e, com a chegada da democracia, voltou à administração direta estatal.

Porém, a crise financeira acabou por levá-la a uma transição para o setor privado em 2015.

PRIVATIZAÇÃO POLÉMICA

Após várias tentativas fracassadas em anos anteriores, o Governo do conservador Pedro Passos Coelho vendeu 61% da empresa em 2015 ao consórcio privado Gateway, formado pelo empresário português Humberto Pedrosa e pelo brasileiro-americano David Neeleman, proprietário da companhia aérea Azul.

A operação foi fortemente contestada pela oposição de esquerda e por sindicatos, que encenaram manifestações contra o que consideravam um ato de "destruição da economia do país".

Os socialistas, já liderados por António Costa, prometeram então reverter o processo se conseguissem chegar ao Governo.

No final de 2015, Costa tomou posse como primeiro-ministro, e em 2016 reverteu parcialmente a privatização, deixando a sua estrutura acionária como estava até aquele ano: 50% do capital nas mãos do Estado português, 45% em poder da Gateway e os 5% restantes para os trabalhadores.

Embora o Estado fosse o maior acionista, o acordo cedeu a administração da empresa ao consórcio privado.

À PROCURA DA RECUPERAÇÃO

Num período de cinco anos de gestão e investimento privado, a empresa conseguiu ganhar fôlego e crescer no mercado: passou de 10 milhões para 17 milhões de passageiros por ano, aumentou a frota de quase 75 aeronaves para mais de 100 e multiplicou a oferta de destinos e frequências, o que também lhe permitiu crescer de cerca de 8,6 mil funcionário para 10,6 mil.

Entretanto, a situação económica do grupo nunca se tornou forte, e em cinco anos só conseguiu registar lucro em 2017, com saldo positivo de 21 milhões de euros.

A companhia aérea encerrou 2019 com prejuízo de quase 106 milhões, que a administração apontou ao enorme investimento na renovação da sua frota e pelos problemas do saturado aeroporto de Lisboa.

O estado das finanças ainda era demasiado delicado para encarar uma crise como a provocada pela pandemia do coronavírus, que obrigou a companhia aérea a interromper quase completamente as suas atividades: passou de 3.000 voos por semana para apenas cinco, todos para as ilhas portuguesas, e suspendeu o contrato de 90% dos seus trabalhadores.

Só no primeiro trimestre de 2020, o prejuízo da TAP chegou a 395 milhões de euros.

Para evitar a nacionalização, o Governo de António Costa promoveu um plano de resgate que previa uma injeção de capital de 1,200 milhão de euros e um projeto de viabilidade para a empresa, que será reestruturada.

Por Paula Fernández