EFELisboa

Na tarde de 6 de setembro o português Tiago Batalha sagrou-se campeão da Europa de futebol de praia em cima da areia. À meia-noite estava com um EPI vestido para trabalhar como em enfermeiro no serviço de urgências de um hospital.

Batalha (Nazaré, 1989) foi um dos jogadores que levou Portugal ao sétimo título de campeão da Europa, mas nunca conseguiu viver apenas do futebol de praia, tendo que o compaginar com o seu trabalho como enfermeiro.

Agora, depois de anos de esforço, conseguiu "um sonho".

"A conquista do Europeu foi um sonho tornado realizado. E ainda por cima foi onde nasci, na Nazaré. Ganhar o campeonato da Europa na minha casa é sempre um sentimento muito bom, apesar de não ter havido público no estádio nem o apoio da família e amigos", assinala numa entrevista com a EFE.

Portugal, que também é campeão mundial, venceu a Suíça por 5-4 e conquistou o troféu.

Batalha, com 13 presenças com a seleção portuguesa, quase não teve tempo para celebrar: "O jogo foi pela tarde, depois só tive tempo de ir para casa, estar um pouco com a família e comer algo e fui trabalhar", recorda.

Este ano joga na equipa da Nazaré, o ACD Sótão, o que facilita organizar os treinos e jogos com o seu trabalho no serviço de urgências do Hospital de Santo André em Leiria, a meia hora de carro.

Mas o tempo é escasso. Às vezes tem que fazer turnos desde a meia-noite até às 8 da manhã e vai direto para os treinos, sem poder descansar.

"Os meus colegas de trabalho ajudam-me e facilitam-me as mudanças de turno", conta o futebolista, que tem que adaptar os seus horários no hospital em função do calendário de treino.

Quando a pandemia chegou a Portugal, Batalha ofereceu ao seu treinador a possibilidade de realizar as sessões de preparação sozinho caso algum colega não se sentisse confortável estar em contacto com ele, que trabalhava todos os dias no hospital.

Mas o estado de emergência foi declarado de seguida, levando à suspensão dos treinos.

Batalha também integrou as fileiras do Sporting, do Braga e do Nacional, e conta com experiências no estrangeiro: jogou no italiano Nápoles e no suíço BSC Chargers Baselland. Nunca parou de trabalhar no hospital de Leiria.

"Aí contei com o apoio do meu chefe e dos meus colegas. Tinha que fazer mais malabarismo para ir trabalhar. Saía, viajava e estava em Itália cinco dias. Depois voltava para trabalhar em Portugal. Enchia com turnos as semanas de antes e de depois da viagem", explica.

Batalha não é o único jogador de futebol de praia que, apesar de jogar na elite, tem outro trabalho para a sua subsistência.

"Tenho colegas que felizmente vivem disto, como o Jordan Santos -eleito melhor do mundo em 2019- e mais alguns. Outros têm a sua empresa e é mais fácil para eles gerir a situação. Mas uma grande percentagem dos jogadores tem outra vida mais além do futebol de praia", diz.

O futebolista considera que o futebol de praia é cada vez mais valorizado, algo que se pode ver na seleção portuguesa, que antes "vivia muito dos jogadores mais velhos que se retiravam do futebol de 11, e agora vêm-se muito jogadores jovens de muita qualidade que se dedicam apenas a este desporto".

E os enfermeiros? Embora "ainda haja muito caminho por percorrer", a COVID-19 está a ajudar que as pessoas vejam a dedicação destes profissionais, considera.

"Creio que as pessoas são cada vez mais conscientes de que somos uma peça muito importante, tão ou mais importante que os médicos e outros profissionais. Precisamos de ser mais valorizados, mas estamos no caminho", conclui.

Por Paula Fernández