EFE

Banguecoque/

Timor-Leste, uma pequena nação que sofreu uma brutal ocupação por parte da Indonésia, celebra esta sexta-feira o 20º aniversário da sua independência como uma democracia consolidada, embora com problemas para acabar com a pobreza apesar das suas reservas de petróleo e gás.

Há 20 anos, os timorenses saíram às ruas numa onda de exaltação e alegria depois de se verem livres de uma ocupação violenta que durou quase um quarto de século entre 1975 e 1999 e deixou um rasto de morte e repressão.

O desfile militar celebrado esta sexta na capital, Díli, foi menos vibrante, mas os timorenses continuam orgulhosos da estabilidade conseguida ao longo destes anos.

Entre os assistentes estrangeiros esteve o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, assim como delegações de Singapura, Japão, Serra Leoa, Estados Unidos, União Europeia e a ONU, entre outros.

Em Timor-Leste, a vida política continua dominada por veteranos da oposição à ocupação indonésia, como o recém nomeado presidente e Nobel da paz, José Ramos-Horta, que foi a voz dos timorenses no estrangeiro durante aqueles anos.

DEMOCRACIA IMPERFEITA MAS PACÍFICA

Num discurso ontem à noite citado pela agência local Tatoli, Ramos-Horta disse que Timor é uma "democracia imperfeita mas pacífica", e que uma das prioridades é juntar-se à Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e manter boas relações com os países vizinhos, incluída a Indonésia.

Ao agradecer a solidariedade internacional com o seu país, o veterano político destacou as relações consolidadas com Estados Unidos, União Europeia, Austrália e Nova Zelândia, mas destacou que também é importante a cooperação com a China, tendo em conta o seu poder global e estatuto de membro do Conselho de Segurança da ONU.

"Esperamos estender a cooperação bilateral com a China, especialmente nas áreas de sustentabilidade, agricultura orgânica, comércio e indústrias médias, novas tecnologias, energias renováveis, conectividade, inteligência artificial e infraestruturas urbanas e rurais", disse Ramos-Horta na tomada de posse do cargo.

Outros dos políticos influentes da velha guarda é o primeiro-ministro, José Maria Vasconcelos "Taur Matam Ruak", um prominente ex-guerrilheiro, e Xanana Gusmão, o carismático ex-guerrilheiro que lidera o partido Conselho Nacional para a Reconstrução de Timor-Leste (CNRT) e aliado de Ramos-Horta.

Esta velha guarda tem conseguido estabilizar o país politicamente e normalizar as relações com a Indonésia, cuja ocupação deixou entre 90.000 e 200.000 mortos, segundo dados da Comissão da Verdade timorense.

POBREZA  

No entanto, este país asiático, que celebrou um referendo sob a alçada da ONU em 1999 e conseguiu a independência em 2002, continua com sérios problemas sociais, como um índice de pobreza de 41%, segundo dados do Banco Mundial.

"Vinte anos depois das tropas indonésias deixarem o país, Timor-Leste é agora colocado com frequência como o país mais democrático no Sudeste Asiático", explica o professor da Universidade Swinburne da Austrália, Michael Leach, à Agência Efe.

"Timor-Leste enfrenta-se desafios importantes devido à necessidade de diversificar a sua economia, o desemprego juvenil e o finito e em declive fundo do petróleo", acrescenta Leach, que aponta que os indicadores de desenvolvimento humano têm crescido de "maneira considerável" desde 2002.

Timor ocupa o 141º lugar na lista de desenvolvimento da ONU, acima de países como Camboja, Myanmar e Paquistão, e é o primeiro país do Sudeste Asiático, só atrás da Malásia, no índice de democracia da Unidade de Inteligência do The Economist.

RESERVAS DE PETRÓLEO

O fundo estatal financiado pelo petróleo ascende atualmente a cerca de 19.000 milhões de dólares (17.100 milhões de euros) e financia 80% da despesa pública, mas estima-se que as reservas irão esgotar-se em 2023 e que os rendimentos não durem mais de uma década.

As autoridades estão há anos a tentar dar início à exploração das reservas dos campos Greater Sunrise, que contêm cerca de 226 milhões de toneladas de petróleo e 854 milhões de toneladas de gás, e poder processar os hidrocarbonetos no próprio país.

No entanto, Charles Scheiner, investigador da ONG timorense La'o Hamutuk, afirma à Efe que a iniciativa Greater Sunrise é incerta devido ao grande investimento que requer e que está a ter dificuldades para atrair investidores porque "não o veem rentável ou por considerações às alterações climáticas".

Scheiner assinala ainda que o projeto "precisaria de pelo menos cinco anos de desenho e construção da infraestrutura antes de poder começar uma produção significativa".

Neste sentido, o especialista americano afirma que é preciso diversificar a economia, algo com o qual a grande maioria dos políticos timorenses está de acordo.

"Mas não estou seguro de que tenham um plano claro para o fazer ou entendam o quão difícil será", ressalta.

Por Gaspar Ruiz-Canela