EFELisboa

Gisberta, transexual brasileira seropositiva, foi assassinada no Porto por um grupo de adolescentes que foram de a alimentar a golpear até à morte. O crime, que marcou Portugal, regressa num duro romance que procura entender o "como" que mereceu o prestigiado Prémio Saramago.

A passagem da ternura à violência guia "Pão de Açúcar", definido como "uma completa ficção" pelo seu autor, Afonso Reis Cabral, que conta numa entrevista à Efe que quis através deste relato procurar conhecer "o outro"e traçar uma "anatomia do mal".

"Esta anatomia, que é para mim o que o livro é, uma anatomia talvez do mal, estava implícita na história, mas só podia fazer-se com a literatura", afirma Reis Cabral (Lisboa, 1990), vencedor com esta obra da última edição do Prémio José Saramago.

Conhecedor dos traços do sucesso -tornou-se em 2014 no vencedor mais jovem do Prémio LeYa com o seu romance "O meu irmão"- Reis Cabral submerge-se numa história que pretendia evitar elementos biográficos com o desafio de abordar um caso traumático para Portugal.

Gisberta emigrou de São Paulo a Portugal fugindo de uma onda de assassinatos de transexuais. A sua difícil vida, que incluiu aplaudidas atuações em bares, prostituição e sida, acabou em fevereiro de 2006 num edifício abandonado do Porto, o "Pão de Açúcar", onde a Polícia encontrou o seu corpo após ser avisada por uns menores.

Eram os mesmos adolescentes que semanas atrás a encontraram em penosas condições numa barraca construída no edifício, que primeiro a alimentaram -"dando-lhe arroz", segundo consta na documentação do caso e refletido por Reis Cabral no seu romance-, mas depois submeteram-na a agressões e torturas.

Foram catorze menores entre 14 e 16 anos que durante dias, ao sair da escola, se organizavam para bater em Gisberta, de 45 anos, até à morte, descer-lhe as calças e gozar com ela.

Quando acreditaram que estava morta, atiraram-na a um poço, mas estava viva e afogou-se, revelou a autópsia. As crianças, que procediam de centros de acolhimento, foram condenadas a penas de perto de um ano de internamento por este caso, que comoveu a opinião pública e impulsionou a luta LGBTI.

"Eu tinha 16 anos naquela altura, viva no Porto, e é evidente que, como a qualquer pessoa, me impressionou muito", lembra Reis Cabral.

Em 2016, ao cumprir-se uma década, o crime ressurgiu em crónicas jornalísticas, e Reis Cabral sentiu o impulso de escrever para explicar o "vazio" que viu "entre o momento em que três crianças encontram a Gisberta e começam a ajudá-la até ao momento oposto em que as mesmas crianças e outros a matam".

Na primeira pessoa, assumindo a voz de um dos agressores, o autor percorre aqueles dias, que interpreta como "uma via-sacra", mas também o que levou a isso, episódios da vida dos rapazes e de Gisberta que moldaram o seu comportamento.

O autor entrou numa etapa de investigação que incluiu o processo judicial, entrevistas com amigas de Gisberta, leitura de teses de doutoramento sobre marginalidade juvenil e inclusivamente chegou a forçar a entrada do Pão de Açúcar, "que hoje em dia está igual". Só rejeitou procurar as crianças, hoje homens anónimos.

"Optei por não fazê-lo porque como queria que fosse realmente ficção, se entrevistava os rapazes a margem para a ficção começava a diminuir", explica.

O conhecimento do caso serviu-lhe para estabelecer "fronteiras" necessárias de verossimilhança: devia decorrer no Porto, respeitar as condições daquele dia -chove quando Gisberta é atirada ao poço- e está o arroz branco que lhe cozinharam quando ainda eram amigos. Também, inevitavelmente, o fatal desenlace.

"Eu aprendi uma coisa com Hitchcock que é muito interessante do ponto de vista da narrativa, e é que o suspense se faz sabendo-se o final", conta.

Longe de limitar a imaginação, incentiva a "curiosidade" de ver como se acaba na espiral de violência, que procurou potencializar encaixando-a entre cenas mais amáveis.

"A violência é ainda mais violenta quando está ao lado da beleza", assegura. Por isso um dos rapazes faz um presente a Gisberta entre agressões, uma tentativa de Reis Cabral de que "a violência fosse mais forte por estar ao pé de coisas bonitas".

Reticente a exercer de juiz, o autor ressalta que não há "uma mensagem" nesta história, que tem como objetivo realizar uma busca para "descobrir o outro", o que representa "um grande aliciente para quem escreve".

E daí descobre quem planta a anatomia do mal? "Que o mal está em todas partes, mas o bem também o está", afirma.

Cynthia de Benito