EFELisboa

"Olha, traz-me pão!", pede Maria desde a janela da sua casa em Alfama. O coração turístico de Lisboa, dividido entre Airbnbs e reformados, é agora um bairro deserto que só rompe o silêncio para fazer pedidos ao domicílio aos poucos que podem sair de casa.

O contínuo movimento de malas desapareceu desta zona, labirinto de encostas e diminutas casas que vê o coronavírus chegar sem se ter adaptado a pleno ao grande sobressalto anterior: o turismo.

Alfama, junto aos bairros da Mouraria, Baixa, Chiado e Castelo, todos vizinhos, reúne a metade do total dos pisos turísticos de Lisboa, um alívio económico para a cidade após ultrapassar o resgate e também um castigo para os habitantes da zona, muitos expulsos para dar prioridade aos visitantes.

Ficam apenas os residentes de toda a vida, uma população na sua maioria reformada que agora, com a chegada do vírus, se recolheu nas suas casas em seguimento das indicações impostas pelo estado de emergência de não sair caso se tenha mais de 70 anos, salvo para o imprescindível.

Mas muitos levaram-no até ao confinamento total.

"Estive em casa a semana passada e agora esta, dizem que tem que ser duas semanas. Tenho medo de sair à rua", diz à Efe Maria Augusta, de 88 anos, encostada à janela desde as 10 da manhã envolvida no seu robe verde.

É um sistema tão precário como útil. A dona Maria espera que algum vizinho passe -já não há outras pessoas em Alfama- e pede-lhe o que precisa, passando antecipadamente algumas moedas. Está nesta rotina há vários dias.

"Pedi carne há uns dias, já não tinha. Tive que pedir a outra pessoa para que fosse buscar hortaliças para fazer a sopa, e pedi a outra pessoa que fosse buscar pão para dois dias. Agora estou aqui à janela para ver se passa alguém e pedir para que me traga o pão para hoje e amanhã, mas não passa ninguém", comenta.

Maria precisa de quatro carcaças. A padaria aberta mais próxima está a 60 metros -suficiente perto para a assinalar, mas longe para que a sua voz chegue- e lá já estão à espera seis pessoas. A única aglomeração do bairro.

É uma fila rápida, formada por moradores de entre 50 a 60 anos, alguns com panos de cores para tapar a boca ao invés de máscaras.

"Isto não dá para acreditar", diz outro residente ao atravessar a fila. Tem 74 anos e não leva qualquer tipo de proteção. Com camisa aos quadrados e casaco, passeia com as mãos às costas, que apenas solta para ajustar os óculos.

"Isto está muito diferente de como estava há duas semanas com os turistas", conta à Efe o homem, que se apresenta apenas como Filipe.

Alfama está mais tranquila, afirma, mas diz estar "preocupado" com o que está a acontecer, ainda mais por estar dentro do grupo especialmente vulnerável ao vírus, que deixa já mais de 2.000 contagiados e mais de 20 mortos em Portugal.

"Só saio um pouco pela manhã e volto logo para casa", assegura Filipe, que pensa duas vezes mas acaba por se pôr na fila do pão, onde os que saem, prometendo sempre aos funcionários voltar no dia seguinte, levam pelo menos 15 unidades.

Catarina sai com mais de vinte.

"Vou comprar para que as minhas vizinhas com mais idade não saiam de casa", explica. Tem 21 anos, uma juventude atípica neste bairro que parece mais acusada com as calças de ganga e óculos juvenis; é apenas traída pelo tabaco.

"Levo pão e tudo o que elas precisam. Depois algumas baixam uma corda atada a um caso para que eu o deixe aí, e outras vão à porta e eu subo até à casa delas", relata.

Percorre um par de ruas com a entrega ao domicílio antes de voltar para a sua, de apenas um metro e meio de largura e onde os edifícios não passam dos quatro andares. Uma rua típica de Alfama.

E então, no que poderá ser o último andar, ouve-se logo outro grito e aparece um homem de uns quarenta anos com quase metade do corpo fora da janela.

"Dona Rita! Vou lá baixo às compras, quer que lhe traga pão?".

Cynthia de Benito