EFEVilar Formoso (Portugal)

Portugal e Espanha deram mais um passo na sua estratégia contra o despovoamento da sua fronteira comum com a criação de uma nova Eurocidade na Raia, cujos detalhes foram adiantados pela ministra portuguesa de Coesão Territorial de Portugal, Ana Abrunhosa, numa entrevista com a EFE.

A zona eleita é a fronteira de Vilar Formoso e Fontes de Oñoro, a passagem comum com maior trânsito de veículos, com uma média de 5.000 carros diários e 2.000 camiões de mercadorias.

Um fator que ambos países pretendem aproveitar para desenvolver um corredor económico e travar dois graves problemas da região: a despovoação e o envelhecimento.

"Vamos criar um projeto integrador contra a 'desertificação' dos territórios", assegurou a ministra numa das suas primeiras entrevistas desde que assumiu a pasta, no passado 26 de outubro, depois da vitória eleitoral do Partido Socialista liderado por António Costa.

A ministra acaba de visitar a fronteira de Vilar Formoso e Fontes de Oñoro para desenhar um plano de resgate do território despovoado da Raia formado pela região Centro lusa e a província espanhola de Salamanca, onde há aldeias que mal chegam aos 50 habitantes.

O projeto pretende aproveitar a conexão internacional por auto-estrada dos dois países, com a colaboração das autarquias das duas localidades, com o objetivo, explicou Abrunhosa, de que os milhões de pessoas que anualmente cruzam esta fronteira parem na Eurocidade.

Será uma iniciativa "para promover o desenvolvimento conjunto de Vilar Formoso e Fontes de Oñoro", para que ambos territórios se complementem e aproveitem os seus equipamentos e infraestruturas, "evitando duplicidades".

A revitalização passa por unir os centros urbanos e evitar o efeito de "dar as costas" que durante décadas distanciou os territórios de Espanha e Portugal ao longo dos seus mais de 1.200 quilómetros de fronteira.

"Sabemos que é muito difícil investir a tendência de crescimento, pelo que temos que garantir qualidade de vida, junto com bens e serviços", argumentou a ministra.

A futura Eurocidade, a primeira da região Centro de Portugal, vai para além das comunicações rodoviárias, já que acolherá "projetos que beneficiem ambos povos, que tenham que ver com a identidade, a cultura e a história e que tragam novas pessoas a estes territórios".

O Governo de Portugal, destacou, "considera que a cooperação transfronteiriça é uma das suas prioridades".

A coesão dos territórios do interior luso passa, em primeiro lugar, pela cooperação dos seus territórios com os seus vizinhos espanhóis, acrescentou.

O objetivo da Eurocidade é que "a fronteira una e que a união potencie o desenvolvimento de ambos lados".

Para conseguí-lo, os governos de Espanha e Portugal pretendem impulsionar o tecido empresarial, desenhar um novo espaço para acolher turistas na fronteira, valorizar mediante uma marca diferenciadora a gastronomia da região e criar um museu.

Com o objetivo de oferecer aos seus residentes uma série de benefícios sociais, culturais e económicos compartilhados, as eurocidades nascem como acordos entre municípios próximos, vinculados históricamente mas pertencentes a diferentes estados da UE.

Para facilitar as sinergias administrativas luso-espanholas, a UE co-financia com fundos europeus projetos conjuntos no marco do Programa de Cooperação Transfronteiriça Espanha-Portugal (POCTEP).

Ao longo da Raia, a fronteira mais extensa e antiga da UE, Espanha e Portugal compartilham já várias eurocidades: Badajoz-Elvas-Campo Maior, a Eurocidade do Guadiana, Verín-Chaves, Valença-Tuy, Salvatierra de Miño-Monção e Tomiño-Vila Nova de Cerveira.

Por Carlos García

(Esta entrevista faz parte da série "Histórias Ibéricas de coesão europeia", #HistóriasIbéricas, um projeto pioneiro de colaboração entre a Efe e a agência portuguesa Lusa com o apoio da Direção de Política Regional da Comissão Europeia)