EFE

Nairobi/

O alarme ligado com os mais de 200 casos de varíola dos macacos detetados em países onde esta doença não é endémica contrasta com a situação em África, um continente familiarizado com o vírus há mais de cinco décadas, embora praticamente sem qualquer atenção mediática.

"É uma doença com a qual continuamos a lidar, conforme surgem surtos, controlamos (...). Sabemos como responder, é endémica há décadas", diz Ahmed Ogwell, diretor interino dos Centros para o Controlo e Prevenção de Doenças de África (África CDC), dependente da União Africana (UA).

Todos os países onde a varíola dos macacos é endémica são africanos: Benin, Camarões, República Centro-Africana (RCA), República Democrática do Congo (RDC), Gabão, Costa do Marfim, Libéria, Nigéria, República do Congo, Serra Leoa, Sudão do Sul e Gana (onde só foi identificada em animais).

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), durante o último ano registaram-se novos casos na Nigéria, RDC, Camarões e RCA, mas não conseguiram muita atenção mediática.

"Vemos claramente a desigualdade na maneira de cobrir as doenças", diz à Efe Christian Happi, diretor do Centro Africano de Excelência para Genómica de Doenças Infeciosas (ACEGID, siglas em inglês), com sede na Nigéria.

"Agora há uns quantos casos de varíola dos macacos no norte global e parece que é o fim do mundo. Mas cada vez que temos um surto da doença no sul global, ninguém fala de isso", acrescenta este especialista, nascido nos Camarões.

Happi critica também o uso estendido de imagens de pessoas negras para ilustrar as notícias sobre o recente surto, apesar de estar a afetar a população branca. "Não é mais que racismo", denuncia.

O vírus foi precisamente detetado em humanos pela primeira vez neste continente, em 1970, numa criança de 9 anos da RDC.

Desde então, a doença, que é menos contagiosa que a covid-19 e menos mortal que o ébola, tem estado presente na África ocidental e central com pouca intensidade, mas no último ano estoiraram vários surtos em diferentes países.

Atualmente, as duas nações mais afetadas são a Nigéria e a RDC. Na primeira, que sofre desde 2017 um surto com mais de 500 casos confirmados até agora, foram contabilizadas 46 infeções este ano, enquanto a segunda notificou 1.238 casos e 57 mortes.

A varíola dos macacos conta com duas variantes: a da África ocidental, com uma mortalidade de perto de 3%; e a da África central, que é mais grave e ultrapassa 10%, segundo a OMS.

SURTOS ESPORÁDICOS E AMPLIFICAÇÃO

"Temos visto surtos esporádicos e, com frequência, limitam-se a muito poucas pessoas em diferentes lugares. Não temos visto uma propagação do vírus como o ébola ou a febre de Lassa", sublinha Happi.

Em África não houve "uma propagação transfronteiriça entre países ou a nível nacional", acrescenta.

Ao se tratar de um vírus transmitido por zoonose -de animais a humanos-, assim como por contacto físico próximo com uma pessoa infetada, o padrão de contágio costuma ser "ocupacional", isto é, costuma afetar pessoas em zonas rurais que trabalham em contacto com animais.

No entanto, com a melhoria das comunicações, "as pessoas podem-se deslocar mais facilmente para áreas urbanas", avisa o especialista, algo ao qual se junta à desflorestação sofrida por estes países nos últimos anos, que aproximou os animais aos centros urbanos.

Desde o passado 7 de maio, foram detetados casos em cerca de vinte países não endémicos, com Espanha, Reino Unido e Portugal à cabeça, mas também em outros países europeus e em Israel, Canadá, Estados Unidos e Austrália, segundo a OMS.

A agência da ONU adverte que a identificação de casos "sem vínculos diretos de viagem a uma área endémica é um facto muito incomum" e, segundo especialistas, isto poderá indicar que o vírus circulou nesses territórios sem ser detetado durante um longo tempo.

Para o virólogo nigeriano Oyewale Tomori, membro de diferentes comités nacionais, da OMS e ex-presidente da Academia Nigeriana de Ciência, "o que vemos na Europa é uma amplificação do padrão de África".

"As pessoas juntam-se num mesmo lugar durante vários dias, realizando atividades que facilitam a transmissão do vírus", aponta Tomori, ao aludir aos dois grandes focos de onde saíram numerosos casos em Espanha: uma grande festa nas Canárias e uma sauna em Madrid.

MAIOR VIGILÂNCIA E INVESTIGAÇÃO

Segundo Happi, "a existência de sistemas de vigilância em África centrados neste tipo de infeções permite que se detetem e se contenham os surtos antecipadamente, graças simplesmente à experiência dos profissionais da saúde africanos".

Face à varíola dos macacos, para a qual só existem tratamentos experimentais ainda não disponíveis em todos os países, as nações africanas têm priorizado até agora medidas não farmacológicas, como o isolamento dos contagiados e os seus familiares.

Além disso, tem-se imunizado de maneira ocasional os trabalhadores da saúde com a vacina da varíola, que oferece uma proteção de pelo menos 85% para esta doença.

"O que se precisa agora não é pânico, mas sim preparação. Precisamos de informação mais detalhada sobre a origem do surto e como se expandiu", aconselha Tomori aos países europeus.

Por Lucía Blanco Gracia