• Carrascos, execuções, massacres... Lisboa mostra o seu lado sórdido
  • Lisboa, 23 dez (EFE).- Atrás da cara amável e tranquila da atualidade, Lisboa guarda um sórdido passado de carrascos, execuções coletivas e massacres, resgatado agora por uma tour que pretende mostrar a outra imagem e que demonstra que a argúcia é já mais um elemento da explosão turística vivida pela cidade.

    Alfama, o fado e as colinas. O mais típico de Lisboa gira entre estes elementos, que há anos que são contados a visitantes que, num centro já abarrotado, acabam por conhecer os pormenores do devastador terremoto de 1755 ou observar a mesa do café A Brasileira onde o poeta Fernando Pessoa não dispensava o seu café diário.

    Tradição, definitivamente, sobre a qual se formaram as tours que agora, com a explosão do turismo, vivem uma nova e crescente concorrência; esta é tanta que os guias já suspeitam que para ganhar espaço é preciso algo mais que saber de história. E assim, às margens do Tejo, floresceu o episódio macabro.

    "Que fizeram então? Esfaquearam o bispo e atiraram-no desde o campanário. Depois, arrastaram o seu cadáver pela rua. Cães acabaram por devorá-lo", a frase, pronunciada às portas da Sé de Lisboa, provoca que dois turistas interrompam bruscamente a sua procura pela melhor foto para olhar para o seu autor.

    É Marco Pedrosa, ator para além de guia que, há um ano, conta "o lado mais sombrio da cidade" num passeio de uma hora e meia. Desde regicídio até execuções coletivas e lendas truculentas sobre a criação de Lisboa: tudo o que seja "sórdido" está aqui.

    "Crimes de Lisboa" é o primeiro percurso temático da Wild Walkers e ideia original de Pedrosa, que destaca à Efe o elemento único da sua proposta.

    "Fizemos esta tour porque não existia um passeio que falesse dos aspectos mais sórdidos e sombrios da história da cidade. Normalmente as tours falam da história da cidade, como o terremoto, mas não se centram em aspectos mais trágicos ou personalidades mais sombrias", comenta.

    E procurou as suas histórias. O infeliz bispo do qual fala junto à Sé foi Martinho de Zamora, vítima de uma multidão furiosa no século XIV por ter recusado tocar os sinos, como faziam as restantes igrejas da cidade, para celebrar a aclamação como rei de João I de Portugal, que ele desconhecia.

    Junto ao bispo, relata-se o fim do rei Carlos I, assassinado a 1 de fevereiro de 1908 na cêntrica Praça do Comércio junto ao seu filho, o príncipe herdeiro Luís Filipe de Bragança, o que deu lugar a uma escalada de violência em Portugal.

    Ou a execução pública perto do Mosteiro de Belém, nos arredores de Lisboa, da rica família Távora, que caiu em desgraça ao serem acusados com grande controvérsia de um atentado frustrado contra o rei José I em 1758.

    "Chegou-se a deitar sal nas suas terras para que nada mais crescesse nela", acrescenta Pedrosa para temperar com sal e pimenta a história, que ainda hoje é objeto de debate entre os historiadores portugueses.

    Os macabros relatos, como as cruéis execuções da inquisição ou o massacre de 19 de abril de 1506, dia em que se iniciou uma perseguição que em poucas semanas levou ao assassinato de mais de 3.000 judeus na cidade, convivem com desastres naturais, como o terremoto de 1755, ou lendas.

    Assim, perto do pátio em que Pedrosa mostra a casa do último carrasco de Lisboa, Luís Alves, conta-se como a cidade chegou a formar as suas famosas colinas; sem entrar em detalhes que causem "spoiler", é possível apenas dizer que o responsável foi um dos desamores causados por Ulisses no seu caminho rumo a Ítaca.

    O herói de Homero mistura-se assim com os azulejos nas abarrotadas ruas de Lisboa, cidade na qual o turismo cresceu 7,2% em 2016, segundo dados oficiais. A tendência, que aponta sempre à subida, leva ao engenho.

    Cynthia de Benito