• Portugal descobre perto da Galiza um navio naufragado no século XVI
  • Lisboa, 21 ago (EFE).- Um grupo de arqueólogos portugueses localizou em águas próximas à Galiza um navio naufragado no século XVI cuja misteriosa origem tentam agora decifrar a partir de centenas de peças e objetos resgatados das profundidades.

    A sua datação do século XVI é uma das escassas certezas em torno da embarcação, praticamente intacta e que provavelmente tem origem ibérica, segundo os investigadores.

    O navio foi descoberto perto da praia de Belinho, no município nortenho de Esposende, a apenas 100 quilómetros da Galiza, e já é considerado como "um dos mais importantes lugares arqueológicos submergidos localizados até agora em Portugal".

    Assim assegura à Efe a arqueóloga da Câmara Municipal de Esposende, Ana Paula Almeida, que faz parte da equipa que conseguiu a localização exata dos destroços após encontrar quatro canhões -dois de ferro e dois de bronze- e uma âncora.

    "Os dados apontam que se trata de um naufrágio ocorrido na segunda metade do século XVI, de um navio provavelmente construído na península ibérica e que regressava do norte da Europa", aponta à Efe Filipe Castro, o arqueólogo da Universidade do Texas A&M (EUA), que colabora na investigação.

    Junta-se a eles Alexandre Monteiro, do Instituto de Arqueologia e Paleociências da Universidade Nova de Lisboa, a terceira parte que procura luz sobre os mistérios dos destroços marítimos.

    Por enquanto, os dados disponíveis transformam este lugar arqueológico "num dos mais completos da sua classe encontrado ao nível mundial", para além de "um dos descobrimentos arqueológicos subaquáticos mais importantes realizados em Portugal", acrescenta Almeida.

    O fato de que não tenha sofrido a priori saques por parte de caçadores de tesouros e que se encontre protegido por uma capa de sedimentos é de grande importância, agregam os especialistas, dada a quantidade de informação que pode ser agora recolhida.

    A história da descoberta começou em 2014, quando os irmãos João e Alexandre, moradores de Esposende, encontraram vários objetos do barco que uma tempestade levou até à praia.

    Centenas de pratos, bacias e projéteis ficaram então à vista dos surpreendidos aldeões e foram analisados em 2015 no âmbito de um projeto europeu liderado pela investigadora espanhola Ana Crespo Solana.

    Grande parte dos objetos estavam realizados em estanho ou latão, destacando-se também os candelabros em bronze, bem como os fragmentos de pedra e metal revestidos de couro que podem corresponder, apontam os especialistas, a armamento pessoal.

    Os canhões achados poderão ter servido de "falcões", ou seja, como arma para atacar alvos em fuga, característica que ajuda na tarefa de definir que tipo de embarcação era.

    Segundo Monteiro, "o potencial que este navio tem é único, já que não há nenhum outro lugar arqueológico, em terra ou submergido, do qual tenham sido recuperados tantos pratos" do século XVI.

    A informação recolhida, levando em conta as dimensões das embarcações da época, aponta a que se trata de um navio de entre 20 e 25 metros de comprimento, com compartimentos centrais que mediam entre 2 e 2,5 metros de largura.

    A investigação chamou já à atenção da comunidade arqueológica internacional, atraindo o interesse das inspeções de divulgação arqueológicas estrangeiras, enquanto se preparam vários artigos académicos sobre este achado.

    O ponto central das investigações passa agora por recuperar dois canhões de bronze e dois objetos que se encontram visíveis nas profundidades, para desincentivar assim a pilhagem no lugar.

    Filipe Castro sublinha que "o envolvimento da comunidade é a melhor solução" e aponta que "se as pessoas vissem o património como seu seria mais difícil que houvesse pilhagem e venda de achados arqueológicos".

    A investigação tem entre os seus objetivos a curto prazo conseguir mais informação sobre o navio para realizar uma datação exata do mesmo, levando em conta que se trata, asseguram os especialistas, de um caso único.

    Sandro Cantante