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Vários dos principais produtores de combustíveis fósseis e criadores de gado do mundo, como o Brasil e a Argentina, estão a pressionar para modificar um relatório chave sobre a crise climática e minimizar a ameaça do aquecimento global, segundo documentos vazados esta quinta-feira por investigadores da Greenpeace.

Ao todo, são mais de 30.000 documentos enviados por Governos, empresas e outras partes interessadas aos cientistas encarregados de elaborar o relatório das Nações Unidas sobre a melhor maneira de enfrentar a crise atual no âmbito da cimeira do clima COP26, que será realizada em novembro em Glasgow (Escócia).

Esta informação, da equipa 'Unearthed' da Greenpeace e que este grupo enviou à Agência EFE, indica que alguns dos maiores produtores de carvão, petróleo, carne bovina e alimentos para animais tentam influenciara, já que as análises sobre a crise climática podem ameaçar os interesses das suas indústrias.

Segundo as revelações, estes países procuram pressionar o grupo de trabalho do III Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC, pela sigla em inglês), cuja missão é oferecer, a cada seis ou sete anos, dados científicos concretos sobre a mitigação das alterações climáticas e cujo próximo relatório é esperado para a segunda metade de 2022.

Os cientistas do IPPC, de acordo com os documentos divulgados pela Greenpeace, não têm a obrigação de aceitar os comentários dos Governos, mas estes permitem conhecer as posições que as nações líderes estão a adotar nos bastidores.

Segundo o divulgado, os produtores de combustíveis fósseis, tais como Austrália, Arábia Saudita e os membros da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), estão a pressionar para que seja eliminada ou minimizada a conclusão de que o mundo precisa de eliminar rapidamente esse tipo de produto.

Brasil e Argentina, dos dois maiores produtores mundiais de carne bovina e ração animal, pressionam os autores do IPCC para retirar as mensagens sobre os benefícios climáticos da promoção de dietas "baseadas em plantas" e de travar o consumo de carne e lácteos.

O Governo australiano solicitou ser retirado de uma lista de principais produtores e consumidores de carvão do mundo, apesar da Austrália ter sido o quinto maior produtor de carvão do mundo entre 2018 e 21, com o argumento de não utilizar tanto quanto outras nações.

A diretora-executiva da Greenpeace International, Jennifer Morgan, disse esta quinta-feira que é possível ver "como um pequeno grupo de países produtores de carvão, petróleo e carne continuam a colocar os lucros de algumas indústrias poluentes à frente da ciência e do futuro do nosso planeta".

"Ao invés de eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e a produção insustentável de carne, estão a utilizar cada oportunidade para proteger os seus interesses corporativos e continuar com os negócios como de costume, enquanto o planeta arde", acrescentou.