EFERio de Janeiro

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e os seus três filhos com mandato parlamentar foram responsáveis por 146 ataques a jornalistas e meios de comunicação por fazerem o seu trabalho durante o terceiro trimestre deste ano, denunciou esta terça-feira a Repórteres sem Fronteiras (RSF).

Bolsonaro atacou a imprensa em 80 oportunidades durante os primeiros nove meses do ano, enquanto que entre julho e setembro foram registados 87 ataques, de acordo com o relatório divulgado pela organização internacional.

Segundo a Repórteres sem Fronteiras, os três filhos legisladores do presidente brasileiro seguiram o exemplo do seu pai com 119 ataques aos meios de comunicação, 79 dos quais perpetrados por Eduardo Bolsonaro, o que representa quase um ataque diário do deputado por São Paulo durante o terceiro trimestre do ano.

Neste período foram também registados 21 ataques de Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro, e 19 pelo seu irmão Carlos, um vereador da "cidade maravilhosa".

As agressões registadas entre julho e setembro vieram também de membros do gabinete do líder da extrema-direita, com Damares Alves, que comanda o Ministério da Família, Mulheres e Direitos Humanos, a liderar com 12 ataques.

É seguida pelo Ministro da Cidadania, Onix Lorenzoni, com sete agressões, e pelo Ministro do Ambiente, Ricardo Salles, que está em terceiro lugar, com cinco ataques.

"Tendo em conta as centenas de ataques realizados este ano, não só pelo próprio presidente mas também pelos seus aliados mais próximos, é seguro dizer que a atitude abertamente hostil para com a imprensa se tornou numa marca registada do Governo de Bolsonaro", disse o relatório divulgado pela organização defensora da liberdade de imprensa.

O relatório aponta ainda que, além dos ataques realizados verbalmente ou através de redes sociais pelo chamado "clã Bolsonaro" e pelos ministros, "também operam outros mecanismos de censura indireta, impondo sérios obstáculos ao livre exercício do jornalismo".

"Para além das agressões, que criam um clima de desconfiança em relação aos meios de comunicação, há desinformação e restrições ao fluxo de dados oficiais, com o objetivo de controlar o debate público; e a politização dos órgãos oficiais de comunicação. Estes instrumentos tornam o ambiente de trabalho dos jornalistas cada vez mais adverso e complexo", diz o relatório.

Um dos casos internacionalmente reconhecidos esteve relacionado com a pandemia e ocorreu a 22 de setembro na Assembleia das Nações Unidas, quando o presidente brasileiro chamou a imprensa de mentirosa por "espalhar o pânico" para que as pessoas ficassem em casa de modo a impedir a propagação do coronavírus.

As agressões do líder da extrema-direita têm sido constantemente denunciadas por várias associações de imprensa no Brasil e algumas, como a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj), salientam que houve 299 ataques do presidente durante os primeiros nove meses do ano.

Deste total, 259 foram ataques contra a imprensa -devido a referências feitas por Bolsonaro contra o jornalismo em geral ou contra alguns meios de comunicação-, outros 38 foram registados como "ataques contra um jornalista", quando o presidente dirigiu o ataque diretamente a um profissional, e outros dois casos foram registados como ataques contra a organização sindical.

Depois de conhecer o relatório da Fenaj, o presidente brasileiro disse através das redes sociais: "Ataque 300: perderam o banquete", numa referência irónica ao cancelamento por parte do Governo do padrão de publicidade nos meios de comunicação.

O Brasil ocupa o 107º lugar no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2020 elaborado pela RSF.