EFEGenebra

O bombardeamento de um centro de detenção na cidade líbia de Tajoura, que causou a morte de 53 migrantes em julho de 2019, foi provavelmente perpetrado por aviação "pertencente a outro Estado" que apoiava às forças do marechal Khalifa Hafter, conclui um relatório da ONU publicado esta segunda-feira.

O relatório assinalou que ainda não está claro se o avião ou aviões que perpetraram o ataque, um dos mais graves desde o aumento de hostilidades no país do norte de África no ano passado, "estava sob comando direto do Exército Nacional Líbio (as forças de Hafter) ou de outro Estado em apoio deste".

"O ataque a Tajoura, dependendo das circunstâncias, poderá constituir um crime de guerra", destacou a alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet.

O relatório não cita diretamente nenhum Estado, embora se considere que o marechal, que procura desde o ano passado arrebatar Trípoli ao Governo de Acordo Nacional apoiado pela ONU na capital, conta com o apoio da Rússia, Arábia Saudita, Egito e Emiratos Árabes Unidos, e tem apoio político de França e EUA.

Por sua vez, o GNA, liderado por Fayez Al Serraj e com controlo sobre uma mínima parte do país, está apoiado política e financeiramente pela União Europeia, Nações Unidas, Itália e Catar e recebe além disso ajuda militar da Turquia.

O ataque, além disso, pode ter sido premeditado, já que "todas as partes do conflito conheciam a localização precisa e as coordenadas do centro, anteriormente atacado em maio", sublinhou o relatório.

No documento, as Nações Unidas pedem a todas as partes que conduzam uma investigação independente e imparcial do bombardeamento ao centro de migrantes com o fim de castigar possíveis violadores da lei internacional.

Também reivindica medidas para evitar que este tipo de incidentes se repitam no curso do conflito, que no passado ano causou a morte de pelo menos 287 civis, especialmente em bombardeamentos, que representaram 60% dos ataques totais.

O bombardeamento em Tajoura registou-se a 2 de julho de 2019 num hangar reconvertido em centro de detenção, onde estavam privados de liberdade 616 migrantes e refugiados. Entre estes, 47 adultos e seis menores faleceram.

"O ataque é um trágico exemplo de como o uso de força aérea se converteu na principal ferramenta da guerra civil líbia, com interferência estrangeira e grave risco para os civis", segundo o diretor da Missão de Apoio da ONU na Líbia (UNSMIL), Ghassan Salamé.

"Devido a isso, os compromissos tomados em Berlim no último dia 19 de janeiro, que solicitaram um fim a essa interferência e que se mantenha o embargo de armas ditado pela ONU, devem ser cumpridos", concluiu.