EFESantiago (Chile)

O protesto pacífico dos chilenos para exigir uma sociedade mais justa abafou esta segunda-feira, pela primeira vez, as manifestações violentas, que colocaram quase todo o país em estado de emergência.

Com panelas nas mãos e uma palavra de ordem clara -"sem violência"-, milhares de chilenos conseguiram mostrar o seu descontentamento e exigir uma sociedade "sem abusos", fazendo as suas vozes serem ouvidas com mais atenção do que os episódios de violência, ainda existentes, mas pontuais na comparação com os últimos dias.

"O povo acordou", dizia um dos cartazes exibidos pelos manifestantes num dos muitos protestos na capital. Locais importantes de Santiago, como as praças Itália e Ñuñoa, foram tomadas por cidadãos descontentes com os rumos do Governo de Sebastián Piñera.

O toque de recolher decretado mais uma vez pelo Exército para esvaziar as ruas a partir das 20h não teve o efeito desejado. Pelo contrário, virou um motivo de celebração, com os manifestantes a fazer uma contagem decrescente para a entrada em vigor dos limites impostos pelas forças de segurança.

O mesmo gesto de desafio à autoridade foi repetido em diferentes pontos de Santiago. Só os canhões de água usados pelos carabineiros, a polícia militarizada do Chile, ou a passagem do próprio tempo conseguiu dispersar as manifestações.

Apesar dos protestos terem sido maioritariamente pacíficos, houve momentos isolados de vandalismo e tensão. Mais uma vez, grupos radicais ergueram barricadas, entraram em confronto com a polícia, assaltaram locais e danificaram prédios públicos.

Os incidentes de violência ocorreram em maior número fora de Santiago, em cidades como Valparaíso, Antofagasta, Temuco e Concepción, esta última palco de incêndios de grandes proporções.

O número de mortos nos protestos subiu para 11, e o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH) informou que 1.333 pessoas foram detidas. Outras 88 continuam hospitalizadas por ferimentos de armas de fogo, cinco delas em estado grave.

PIÑERA ESBOÇA MUDANÇAS

O presidente do Chile anunciou que se vai reunir esta terça-feira com todos os partidos políticos para procurar medidas para reconstruir o país e conseguir ideias para melhorar a segurança social, reduzir o preço dos medicamentos e melhorar a qualidade no atendimento da saúde.

Além disso, o Senado transformou em lei a iniciativa tramitada com urgência para que Piñera possa reduzir as tarifas do transporte público, entre elas a do Metro de Santiago, cujo aumento foi a detonante para a atual crise social no Chile.

Piñera também baixou o tom do discurso. Se no domingo disse que o Chile estava em "guerra" contra os manifestantes violentos, na segunda pediu compreensão e disse ter feito as afirmações por estar indignado pelos danos provocados pela criminalidade.

Rubén Figueroa