EFEWashington

O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (2017-2021), intimidou funcionários e trabalhadores eleitorais de vários estados para alterar o resultado das eleições de 2020, vencidas pelo democrata Joe Biden, segundo informou esta terça-feira o comité legislativo que investiga o ataque ao Capitólio.

Vários funcionários de estados testemunharam esta terça-feira perante o comité e garantiram que receberam ameaças de morte de apoiantes de Trump, que os assinalaram publicamente por não quererem alterar os resultados das eleições presidenciais de novembro de 2020.

Uma das testemunhas foi o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, a quem Trump exigiu que encontrasse votos suficientes para anular o resultado das eleições naquele estado, alegando sem provas que os democratas cometeram fraude.

Raffensperger disse que a sua equipa investigou "todas as alegações" de fraude eleitoral feitas por Trump e concluiu que não ocorreu nenhuma irregularidade.

Questionado pelo congressista democrata Adam Schiff se as alegações de Trump de que na Geórgia havia 5.000 votos de pessoas que morreram tinham sido investigadas, Raffensperger respondeu que "na verdade, nas suas queixas, alegavam 10.315 mortes".

"Encontramos dois falecidos quando escrevi a minha carta ao Congresso, datada de 6 de janeiro, e logo de seguida encontramos mais dois, ou seja, uma, duas, três, quatro pessoas, não 4.000, apenas um total de quatro. Não são nem 5.000, nem 10.000", destacou.

Raffensperger acrescentou que os números "não mentem" e que reviram todos os dados eleitorais após as alegações de Trump e do seu então advogado pessoal, Rudy Giuliani, de que cerca de 66.000 eleitores menores de idade votaram nas eleições de 2020.

"Descobrimos que havia zero" eleitores menores de idade, disse o secretário de Estado da Geórgia.

Por não seguir os ditames de Trump e Giuliani, Raffensperger tornou-se alvo da ira do então presidente, que insinuou que o funcionário podia ser responsabilizado criminalmente por rejeitar as suas acusações, sem provas, de fraude eleitoral.

O secretário de Estado da Geórgia explicou que a sua esposa recebeu ameaças sexuais e que o seu próprio número de telemóvel e endereço de e-mail foram publicados na internet, o que o levou também a receber ameaças.

Por sua vez, Gabriel Sterling, responsável pela implementação do sistema de votação nas eleições de 2020 na Geórgia, explicou como os trabalhadores eleitorais foram ameaçados após essas eleições.

Sterling disse ao comité que ficou muito chateado quando descobriu que um trabalhador da Dominion Systems, a empresa que fabrica as máquinas de contagem de votos, estava a receber ameaças de morte de seguidores do QAnon, um movimento conspiratório.

A testemunha lembrou de uma chamada que recebeu do gerente de projeto da Dominion Systems, que lhe disse que um dos seus funcionários foi ameaçado num vídeo partilhado por apoiantes do QAnon.

Depois da chamada, Sterling indicou que pesquisou no Twitter e encontrou o nome do trabalhador, que foi acusado de ter cometido traição.

"Esta foi a gota de água", comentou Sterling, que deu uma conferência de imprensa em dezembro, um mês depois da ida às urnas, onde alertou que as acusações de Trump podiam gerar violência.

Também participou na audiência desta terça-feira outra vítima das acusações de Trump, Shaye Moss, uma investigadora da Geórgia que contou ao comité a campanha de assédio que enfrentou depois de se tornar alvo de Trump e aliados.

Moss e a sua mãe, Ruby Freeman, também funcionária eleitoral, foram acusadas pelo presidente, que não apresentou provas, de terem manipulado boletins de voto falsos a favor de Biden durante a noite das eleições.

Em consequência, ambas receberam ameaças de morte e insultos racistas via Facebook.

"Muitas ameaças a desejarem a minha morte, dizendo que eu acabaria na cadeia com minha mãe e dizendo coisas como 'fique feliz por ser 2020 e não 1920'", lembrou Moss.

Um vídeo do depoimento gravado de Freeman foi exibido na sessão, no qual ela disse que tinha perdido a sua reputação por causa das acusações infundadas de Trump e que teve que mudar de casa depois das eleições, pois o FBI lhe disse que não seria seguro ficar ali até pelo menos a posse de Biden em janeiro de 2021.

Mesmo assim, Freeman ressaltou que até hoje não se sente segura em qualquer lugar.