EFENave de Haver (Portugal)

A Reserva Biológica "Campanários de Azaba", com 1.100 hectares de territórios de Espanha e Portugal, transformou-se na última década no exemplo mais singular de biodiversidade sustentável do denominado montado português, conhecido em Espanha como a devesa.

Em entrevista à Efe, Carlos Sánchez, presidente da Fundação Natureza e Homem, entidade que administra essa Reserva Biológica, analisa a perda de biodiversidade que pode ter este habitat único no mundo, ameaçado pela sobre-exploração e também pelo abandono populacional.

"No equilíbrio está o sucesso", assegura Sánchez, que reconhece que, desde a entrada em vigor da Política Agrícola Comum da UE "a devesa espreme-se mais, já que as pastagens são mais utilizadas".

No entanto, na parte do interior português e na zona da fronteira, o êxodo populacional provocou um abandono do meio rural e com isso um abandono das devesas ou montados, pelo que o mato se apodera do meio e perde-se biodiversidade.

Para Sánchez, um dos principais problemas dos sete milhões de hectares de devesa na Península Ibérica é a falta de rejuvenescimento do arvoredo, pelo que são "muito importantes" as políticas locais para a sua regeneração.

Nestes dez anos, a Reserva Biológica Campanários de Azaba, com 600 hectares nas aldeias espanholas de Espeja e Alamedilla -ambas na província de Salamanca- e 500 na zona portuguesa de Nave de Haver (fronteira com Salamanca), desenvolveu diversos projetos para fomentar a biodiversidade na devesa, financiados pela União Europeia (UE).

Uma das chaves para favorecer a biodiversidade foi a reintrodução de herbívoros em perigo de extinção como o cavalo das rezarolhas -proveniente do Parque Nacional de Doñana-, a vaca sayaguesa da província de Zamora, o coelho ibérico e o cervo.

Além disso, as suas boas práticas propiciaram que esta zona luso-espanhola tenha sido catalogada como a "primeira reserva entomológica de Espanha", já que está considerada como um dos enclaves mais favoráveis à conservação de insetos.

Um dos programas mais relevantes executados pela Fundação Natureza e Homem para favorecer a biodiversidade da devesa foi o projeto "Life Clube de Granjas", que possibilitou instaurar boas práticas nas devesas e montados de Portugal e de Espanha.

"Trata-se de uma iniciativa que se concluirá nos próximos meses desenvolvida sobre 10.000 hectares de ambos os países para introduzir as boas práticas, tais como podas, regeneração, manejos sustentáveis ou educação ambiental".

As atuações centraram-se nas zonas portuguesas do Vale do Côa e da Serra da Malcata e nas autarquias espanholas de Azaba, Gatuna e Monfragüe.

Carlos Sánchez também avançou que em matéria de cooperação esta Reserva Biológica entre fronteiras vai hospedar a partir de 2018 um projeto piloto com financiamento europeu para a deteção precoce dos incêndios florestais.

Trata-se do projeto "Bio-Fronteira", que irá aplicar métodos de alertas de incêndios ou, inclusive, câmaras de vigilância, apoiadas por uma unidade de intervenção rápida perante possíveis fogos em ambos os lados da fronteira.

Segundo Sánchez, a seca extrema, que constitui "um duro golpe" para a biodiversidade e para o modelo de reflorestação baseado na monocultura de espécies como o pinheiro ou o eucalipto, junto com a falta de manutenção por causa do despovoamento, permitem que proliferem os "pavorosos" incêndios florestais.

Perante este cenário, para o presidente da Fundação Natureza e Homem são "necessários novos modelos de gestão".

Sanchez considera "prioritária" a restauração das zonas incendiadas mas aposta também numa "restauração com espécies que não sejam rentáveis a curto prazo" e, inclusive, por espécies protetoras autóctones da devesa, como o sobreiro ou o carvalho.

A seu ver, um modelo ideal para restaurar zonas incendiadas seria o do mosaico, baseado na plantação de espécies produtivas e protetoras (dos fogos) alternadas com pastos.

E para favorecer ainda mais a zona envolvente da devesa, "um habitat único no mundo" que só existe na Península Ibérica, Carlos Sánchez advoga por maiores políticas protecionistas da UE.

Carlos García