EFELisboa

António Costa já foi tudo, ou quase tudo, na política. Agora, este socialista português incombustível, reconhecido como hábil negociador, pragmático e temperamental, enfrenta um dos momentos mais difíceis na sua longa carreira.

"Não somos milagreiros, somos um Governo responsável", prometia em 2019. Então, conseguiu uma vitória amarga que o deixou à beira da maioria absoluta. Dois anos depois, um Portugal dividido volta às urnas e Costa tem tudo em jogo.

Desde que se estreou na política na Câmara de Lisboa, em 1982, com apenas 21 anos, têm sido muitas as crises que tem resolvido. O seu círculo mais próximo não tem dúvidas da sua audácia para crescer em tempos difíceis, mas começa-se a ouvir a palavra "cansaço".

Adepto do Benfica, agnóstico, casado e pai de dois filhos, António Costa é, ganhe ou perca as eleições do próximo domingo, um dos políticos mais carismáticos da democracia portuguesa.

APRENDIZ DE PERRY MASON

António Luís Santos da Costa (Lisboa, 1961) tinha o seu futuro muito claro desde muito cedo. Aos 14 anos colava cartazes do Partido Socialista na rua e decidiu estudar Direito para ser como Perry Mason, o advogado dos romances policiais de Erle Stanley Gardner.

Filho de um escritor e militante comunista oriundo da antiga colónia portuguesa de Goa (Índia) e de uma jornalista e ativa sindicalista, aos dez anos, com o pseudónimo de "Babuch" ("menino" em dialeto goense), escrevia críticas de televisão para uma revista.

Costa, brincam os seus colaboradores, "bebeu política no leite materno".

Marcelo Rebelo de Sousa (direita), presidente de Portugal, foi seu professor na universidade; estreou-se como advogado no gabinete do ex-presidente Jorge Sampaio e foi apadrinhado pelos grandes do socialismo português, desde António Guterres a Mário Soares ou José Sócrates.

Em 1993, lançou-se à Câmara de Loures -reduto comunista, no cinturão vermelho da capital- e organizou uma inverosímil carreira entre um burro e um Ferrari para denunciar os problemas de mobilidade. Ganhou o burro. Costa perdeu, mas conseguiu popularidade dentro e fora do partido.

Da sua audácia e tenacidade há diversas provas. Em 2000, sendo ministro de Justiça no Governo do seu amigo Guterres, demitiu-se por surpresa depois de um desentendimento com um colega. O agora primeiro-ministro teve que mandar um motorista com um telefone para conseguir que lhe respondesse. A jogada deu certo. O seu adversário "demitiu-se" e Costa fortaleceu-se.

Quando se irrita, segundo admitem os seus colaboradores em privado, levanta a voz e chega a dar golpes na mesa. Mas sabe negociar, dizem.

AS GERINGONÇAS

Depois de uma breve passagem pela vice-presidência do Parlamento Europeu, regressou como número dois de Sócrates, o único que conseguiu uma maioria absoluta para o Partido Socialista (PS) e agora marcado por escândalos de corrupção.

O seu "assalto aos céus" começou em 2007. Recuperou Lisboa para os socialistas, mas viu-se obrigado a pactuar com a esquerda numa premonitória "geringonça", antes de duas maiorias absolutas na capital (2009 e 2013) catapultarem a sua liderança no PS.

Os seus adversários acusam-lhe precisamente de ser um homem "de Lisboa", centrado na burocracia e desligado do Portugal "real".

A experiência serviu-lhe, e muito, em 2015, para fechar a aliança com o Bloco de Esquerda e os comunistas num Portugal afogado pela crise e a austeridade imposta pela troika.

O "matrimónio" durou pouco. Em 2019, Costa acelerou o "divórcio" e arriscou-se a governar em minoria.

O líder socialista sonha com a maioria absoluta, mas as contas não dão esse resultado. Pressionado pelas sondagens, agora ergue novamente pontes com a esquerda.

"É perspicaz e prático", explica à Efe Diogo Torres, autor do livro "Marcelo e Costa".

Um pragmatismo que lhe permitiu, por exemplo, mobilizar o exército para travar uma greve à frente de um Governo apoiado pelos comunistas.

NUNCA SEREI PRESIDENTE

Antes do desabe da legislatura, Costa tinha outros planos. Os rumores colocavam-no em Bruxelas em 2023. Agora assegura que "não dará as costas" aos seus eleitores e nega ter um Plano B.

Costa está cansado? Depois de seis anos de Governo começa a acusar desgaste, afirma à Efe o analista António Costa Pinto.

"Costa não quer continuar como primeiro-ministro com os resultados que as sondagens lhe dão. Está emparedado entre o desejo impossível da maioria absoluta e a realidade insuportável de vencer por pouco", opina o colunista João Miguel Tavares no jornal Público.

Admirador do britânico Winston Churchill e do russo Mikhail Gorbatchov, só lhe falta um cargo no currículo: a Presidência portuguesa.

Vê-se como presidente? Perguntaram-lhe numa recente entrevista. "Não, tenho a certeza que é um cargo que nunca vou exercer".

Por Mar Marín