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Enfrentar o independentismo na Catalunha e manter a ortodoxia fiscal exigida pela UE enquanto se potenciam as políticas sociais num marco de menor crescimento serão os grandes desafios do novo Governo espanhol que se estreia esta segunda-feira.

A luta contra as alterações climáticas, a transição para uma economia digital e verde, a garantia das pensões públicas, o despovoamento das zonas rurais e o feminismo serão outros dos eixos essenciais da ação do Executivo.

O Governo que Sánchez estreia hoje é o primeiro de coligação na história recente de Espanha, e também o mais esquerdista, já que reúne o Partido Socialista (PSOE) e um partido formado por grupos à sua esquerda: o Unidas Podemos.

Além disso, este Executivo terá pela primeira vez quatro presidências, com as quais Sánchez quer salientar as suas grandes prioridades: assuntos políticos, economia, políticas sociais e transição ecológica, e três delas estarão ocupadas por mulheres.

A primeira vice-presidente e "número dois" do Governo, Carmen Calvo, resumiu hoje esta mistura de progressismo e moderação ao dizer, num dos atos de tomada de posse: "Vamos enfrentar os desafios com valentia, equilíbrio e realidade".

CATALUNHA, A PROTAGONISTA DA FRENTE POLÍTICA

No lado político doméstico, o protagonismo absoluto será para a Catalunha, onde Sánchez fez uma grande aposta com a aceitação de uma mesa de diálogo com o Governo regional catalão a fim de conseguir a abstenção do partido independentista de esquerda catalão ERC, que foi chave na investidura do presidente.

O bloco da oposição de direita e extrema-direita (Partido Popular, Ciudadanos e Vox) critica com grande dureza este acordo, considerando-o uma cedência aos independentistas catalães e um atentado à unidade nacional, e estará atento a qualquer problema que surja para criticar Sánchez e o seu Governo.

O diálogo com a Catalunha estará a cargo do próprio Sánchez e da primeira vice-presidente, Carmen Calvo, junto com a ministra de Política Territorial, Carolina Darias.

ORTODOXIA ECONÓMICA PARA CONTENTAR BRUXELAS E OS MERCADOS

  A equipa económica está formada por ortodoxos para garantir às instituições da União Europeia e aos mercados que Espanha irá cumprir os seus compromissos de redução do défice público e estabilidade macroeconómica.

  À frente dessa equipa está a vice-presidente Nadia Calviño, precisamente ex-diretora-geral de Orçamento da Comissão Europeia, que terá que conjugar o corte do défice com um aumento das políticas sociais para os mais desfavorecidos, mas num meio de menor crescimento, nacional e mundial.

  A economia espanhola cresce agora a um ritmo anual de 1,9%, menos um ponto do que quando Calviño foi nomeada ministra -em junho de 2018- e o valor mais baixo em cinco anos, mas a Comissão Europeia pede um ajuste estrutural do défice público de 0,65% do PIB.

  O Governo planeia resolver este quebra-cabeças com um aumento de impostos às pessoas que ganhem mais de 130.000 euros anuais e às grandes empresas, com o qual confia conseguir mais rendimentos para contentar todos.

No mesmo plano de Calviño encontra-se José Luis Escrivá, um economista ortodoxo até agora presidente da Autoridade Independente de Responsabilidade Fiscal (AIREF), que na nova pasta de Segurança Social e Migrações terá que enfrentar a reforma do sistema de pensões.

Trata-se de uma questão chave, pois a subida e garantia das pensões da reforma é um delicado tema social para a esquerda, mas é também um fator relacionado com a estabilidade do orçamento devido ao envelhecimento da população espanhola.

Além de Calviño, os ministros dos Negócios Estrangeiros, Arancha González, e Agricultura e Pesca, Luis Planas, têm uma destacada experiência na União Europeia, o que pode facilitar o entendimento com as instituições de Bruxelas.

Sánchez quer que este Governo reforce a diplomacia económica, para a qual escolheu González, com mais de vinte anos de trabalho na área de comércio internacional na Comissão Europeia e na Organização Mundial do Comércio.

A POLÍTICA SOCIAL NAS MÃOS DO ESQUERDISTA PODEMOS

Elementos de interesse são a subida do salário mínimo e os artigos mais criticados da legislação laboral aprovada pelo Governo do conservador Mariano Rajoy, bem como o limite à subida de preços dos alugueres de casas.

    Quase toda esta área estará nas mãos dos ministros do Unidas Podemos (os de Igualdade, Trabalho e Consumo), com Pablo Iglesias à cabeça como vice-presidente e coordenador. "Ampliar os direitos sociais" será o objetivo prioritário, avançou hoje Iglesias.

    A consecução da igualdade plena da mulher, incluindo o combate contra a violência de género e os delitos sexuais, é outro ponto central deste Governo, no qual há o mesmo número de ministras que de ministros (onze de cada género).

A luta contra as alterações climáticas aumenta de importância ao passar de um ministério à vice-presidência, e além disso com o desafio acrescentado de procurar soluções ao progressivo despovoamento das zonas rurais do interior do país.

E também a promoção da habitação pública, a transição à economia digital e verde -com o impulso da investigação científica e técnica-, e uma reforma da educação.

Por Rafael Cañas