EFE

Lisboa

Além do cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, pelo menos dois conhecidos bispos de Portugal ocultaram à polícia e à Procuradoria denúncias de abusos sexuais a menores no seio da igreja católica portuguesa, conclui uma investigação jornalística divulgada esta sexta-feira pelo jornal Expresso.

Junto a Clemente, "terão tido conhecimento de queixas de abusos por parte de sacerdotes e não comunicaram as suas suspeitas nem à Polícia Judiciária nem à Procuradoria" o bispo da Guarda, Manuel Felício, e o bispo emérito de Setúbal, Gilberto Reis, entre outros.

Segundo o Expresso, Felício recebeu há uma década denúncias sobre abusos contra o então vice-reitor do seminário do Fundão, Luís Mendes, mas ocultou as queixas, embora o sacerdote tenha eventualmente sido detido e condenado.

Em Setúbal, onde Gilberto Reis exerceu como bispo entre 1998 e 2015, as denúncias contra um dos sacerdotes da diocese terminaram numa investigação que afastou o suspeito durante vários anos, mas uma investigação canónica devolveu-o ao exercício como pároco.

Este caso aviva o fogo da recente polémica em Portugal que começou quando o jornal Observador revelou que o Patriarcado de Lisboa não comunicou à polícia uma denúncia por supostos abusos sexuais a um menor no final da década de 1990.

Além disso, o sacerdote denunciado nesse caso manteve-se no ativo com funções de capelania.

Em 2019, Clemente, que já era patriarca de Lisboa, voltou-se a reunir com essa vítima, que "não quis divulgar o caso", alegou o cardeal numa carta aberta divulgada na passada sexta-feira, na qual defendeu que tomou "uma decisão tendo em conta as recomendações civis e canónicas vigentes".

O Patriarcado de Lisboa indicou que o suspeito está "atualmente hospitalizado e cessou funções no centro hospitalar onde trabalhava".

SACERDOTE DENUNCIA DOZE COLEGAS

A investigação recolhe também depoimentos de um sacerdote que denuncia 12 colegas -6 ainda no ativo- por suspeitas de abusos sexuais a menores de idade.

O denunciante, segundo o Expresso, fez a sua primeira denúncia sobre abusos em 1997, mas não teve resposta por parte da hierarquia da Igreja, algo que não o fez desistir, continuando a recolher depoimentos que agora enviou à Comissão que investiga os abusos em Portugal.

"Pude evitar suicídios de jovens vítimas de abusos, mas não consegui parar outros", admite o sacerdote ao Expresso.

Segundo o jornal, um dos apontados pelo denunciante já foi investigado pela Igreja e a Procuradoria e o caso foi arquivado.

Outro dos denunciados foi assinalado por mais de uma dezena de vítimas que foram abusadas quando eram escoteiros. O Ministério Público também investigou as denúncias e arquivou-as.

O Patriarcado de Lisboa alega que houve denúncias sobre este sacerdote em 2013 e que dois anos depois recebeu autorização do Vaticano para promover a sua expulsão. No entanto, só em 2020 é que o suspeito pediu a dispensa das suas obrigações, e hoje exerce como padre na igreja evangélica.

INVESTIGAR ATÉ AO FINAL

Os membros da comissão independente que investiga os abusos na Igreja serão recebidos esta sexta pelo presidente, o conservador Marcelo Rebelo de Sousa.

"Há que levar a investigação até ao final, demore o que demorar, disse o presidente aos jornalistas na noite de quinta-feira.

"O que mata as instituições é o medo de apressar a verdade", ressaltou. "Descobrir, denunciar e castigar é uma capacidade de um Estado de Direito vivo".

Estas declarações representam uma viragem na postura mantida até agora pelo presidente luso que, há uma semana, quando começou a polémica pela atitude do Patriarcado de Lisboa sobre os abusos, disse não encontrar "nenhuma razão para considerar que pudessem ter querido ocultar à justiça a prática de um delito".

Portugal, país onde mais de 80% da população se declara católica, vive este ano a sua primeira investigação a grande escala de casos de abusos no seio da Igreja, centrada em agressões a menores de idade.

A comissão que estuda estes abusos a menores no país recebeu em seis meses perto de 350 denúncias.

Das centenas de denúncias notificadas, só 17 foram enviadas à Procuradoria pois os delitos não prescreveram ou têm possibilidades de prosperar.