EFELisboa

Depois de serem parceiros do Governo socialista de António Costa na passada legislatura, o Bloco de Esquerda (BE) e o Partido Comunista Português (PCP) dão-lhe as costas e detonam uma crise que poderá levar a eleições antecipadas em Portugal.

Os socialistas estão há seis anos a governar em minoria apoiados, em maior ou menor medida, nos partidos mais à sua esquerda, mas o idílio que começou em 2015 para derrubar o Executivo conservador de Pedro Passos Coelho tem-se apagando pouco a pouco e está a ponto de levar a legislatura pelos ares.

A crise causada pelas contas de 2022, que vão a votação no Parlamento esta quarta-feira, chega em plena recuperação pós-covid, marcada pelos 9.700 milhões de euros de fundos europeus que Portugal irá receber até ao próximo ano.

INÉDITA "GERINGONÇA" EM 2015

Os dons negociadores de Costa e da sua equipa conseguiram mantê-lo seis anos à frente do Executivo em minoria, o que começou quando em 2015 conquistaram o que parecia quase uma utopia, uma aliança com a esquerda batizada de "geringonça".

Depois, com apenas 86 dos 230 deputados no hemiciclo, assinaram acordos com medidas para toda a legislatura com o Bloco e o PCP, assim como com os Verdes, que vai a eleições em coligação com os comunistas.

O pacto foi inédito na democracia portuguesa, onde socialistas e comunistas, um ortodoxo partido tradicionalmente pouco aberto à mudança, mantinham uma histórica rivalidade.

Costa convenceu também o Bloco de Esquerda, partido marxista nascido em 1999 após a fusão de várias pequenos grupos e adscrito na Europa ao grupo da Esquerda Unitária.

Com eles conseguiram permanecer à frente do Governo durante quatro anos apesar de alguns sobressaltos, como a tempestade política que eclodiu em 2019.

A uns meses do fim da legislatura, o desacordo sobre a atualização dos salários dos professores levou Costa a chegar a ameaçar demitir-se, e a crise só foi superada graças à mudança no sentido de voto da direita, que se posicionou junto aos socialistas.

SEGUNDA LEGISLATURA SEM ACORDOS

Com as relações afetadas por essa crise e uma campanha eleitoral em que os socialistas atacaram os seus parceiros de esquerda em busca da maioria absoluta, as eleições de 2019 deixaram um cenário diferente ao de 2015.

Os de Costa melhoraram a sua presença no Parlamento, com 108 assentos, mas ficaram a oito da maioria absoluta, decidindo enfrentar a nova legislatura sem acordos, negociando medida a medida.

A estratégia permitiu aprovar até agora dois orçamentos, mas a sua eficácia tem vindo a enfraquecer ano após ano.

Conseguiram levar as contas de 2020 para a frente graças à abstenção do Bloco e dos comunistas, mas para as de 2021, em plena pandemia, o apoio diminuiu e os marxistas deram-lhe as costas, embora tenham também recebido luz verde.

Desta vez, os dois partidos anunciaram que vão votar contra, apesar de se tratar de um dos orçamentos mais sociais dos últimos anos, com aumentos de 40 euros para o salário mínimo e 10 euros para pensões ou creches gratuitas, entre outras medidas.

Mas não foi suficiente para convencer marxistas e comunistas, o que, juntamente com a esperada rejeição da direita, poderão levar o país a eleições antecipadas.

TROPEÇO ELEITORAL

Paradoxalmente, a esquerda chega de um tropeço na última ida às urnas, as municipais em finais de setembro.

Os socialistas consolidaram-se como a força com mais apoios mas perderam quase 250.000 votos -com mais de 9 milhões de eleitores- e a sua Câmara Municipal mais importante, Lisboa.

Os comunistas também não tiveram bons resultados e perderam seis autarquias, enquanto o Bloco passou de sexta a sétima força ao nível local ao ser ultrapassado pelo partido de extrema-direita Chega.

Este último poderá ser um dos grandes beneficiados de umas eleições antecipadas, enquanto que o maior partido da direita, o PSD, está imerso numa guerra interna que irá colocar frente a frente nas primárias o seu atual líder, Rui Rio, e o eurodeputado Paulo Rangel.

Por Paula Fernández