EFELisboa

A situação ainda "se vai complicar". A ministra da Saúde portuguesa, Marta Temido, não esconde a preocupação do Governo com a quarta vaga que sacode Portugal e o avanço "galopante" da variante delta, dominante em grande parte do país.

Depois de um severo confinamento, Portugal olhava para o verão com otimismo, mas agora volta a colocar os olhos na tempestade, com índices de contágio que não eram vistos desde inícios do ano.

Esta terça conta com 1.746 novos positivos e seis vítimas mortais. Os números agravam-se com as contundentes conclusões de um relatório do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (INSA): A variante delta espalha-se de forma "galopante". Em apenas um mês passou de representar 4% das infeções a 55,6%.

A distribuição geográfica é irregular e oscila entre o 3,2% detetado nos Açores e os 94,5% do Alentejo. Mas a delta avança também por outras regiões, em especial Lisboa e Vale do Tejo (76,4%) e Algarve (75%).

"Não o podemos dizer com precisão", mas a velocidade de expansão da variante delta "leva-nos a considerar que dentro de duas ou três semanas estará em todo o país em 80% ou 90%", estima o INSA.

A delta, segundo o estudo, "cresce também noutros países a uma velocidade surpreendente".

Já a mais preocupante, a delta plus (nepalesa), limita-se a uns 50 casos localizados em Portugal.

A alfa, associada ao Reino Unido, está a cair. Em junho foi a responsável por 40,2% dos contágios em solo luso, enquanto em maio foi 88,4%.

Portugal, com pouco mais de 10 milhões de habitantes, registou até agora 877.195 positivos e 17.092 falecidos desde o início da pandemia.

A SITUAÇÃO COMPLICA-SE

"A situação ainda se vai complicar mais antes de melhorar", admitiu a ministra da Saúde, Marta Temido.

"Há quem diga que nós nunca deixámos de estar na primeira vaga. O que é facto é que tivemos várias ondas e estamos agora numa quarta", admitiu a ministra. Agora é necessário "cautela e cuidado", disse à imprensa portuguesa.

"É uma situação de preocupação", resumiu Temido

E há motivos. Alguns especialistas advertem já para a lentidão na vacinação e as complicações da variante delta para conseguir a imunidade de grupo.

Com o impacto da delta, os especialistas alertam que a imunidade de grupo não se vai conseguir com 70% da população vacinada. É preciso chegar aos 85%, defende o médico intensivista José Artur Paiva, membro de uma comissão oficial de acompanhamento da covid.

A ministra não entra em debate sobre os números: "Enquanto não alcançamos a imunidade de grupo vamos ter que manter comportamentos de prevenção. A vacinação por si só não é garantia de que as pessoas não se vão infetar", alertou.

GOLPE PARA O TURISMO NO ALGARVE

O avanço da covid fulminou as expectativas de recuperação do turismo no Algarve (sul), o principal destino turístico do país.

Londres e Berlim colocaram Portugal nas suas listas "vermelhas" e a pandemia forçou o Governo a fechar escolas em cinco municípios algarvios.

"É um duro golpe, uma vez que as empresas que tinham feito investimentos para todo o verão, de repente não poderão recuperar o investido", explica à Efe João Fernandes, presidente do Turismo do Algarve.

A incidência acumulada a 14 dias excede em média 300 casos por 100.000 habitantes na região. O caso extremo é Albufeira, onde 47% dos positivos nos últimos dias são estrangeiros, segundo Fernandes.

Mas, assegura, os números alarmantes da incidência não correspondem à realidade porque a população flutuante da área não foi tida em conta.

SOLUÇÃO: VACINAR E VACINAR

A solução, de acordo com o Governo e especialistas, é testar em massa e acelerar a vacinação. Portugal já começou a imunizar os maiores de 33 anos e está a preparar uma campanha para os maiores de 18 a partir da próxima semana.

Em Lisboa é possível fazer um teste de antigénio gratuitamente e, para certos grupos, receber a vacina sem marcação prévia.

João Fonseca, 38 anos, encorajou os seus vizinhos a serem vacinados hoje após receber uma dose da Pfizer no Estádio Universitário de Lisboa, um dos maiores centros de vacinação da capital.

A poucos quilómetros de distância, perto do Tejo, a Feira da Ladra, o mercado de rua mais popular de Lisboa, sobrevive dizimado.

Jorge foi lá hoje para dar uma vista de olhos. Caminha com uma máscara e pede prevenção: "Temos de viver com isto", diz.

"As pessoas têm de estar mais conscientes porque há algo que não vemos, mas está sempre aí".

Por Mar Marín