EFEWashington

A investigação dos democratas para abrir um julgamento político contra o presidente norte-americano Donald Trump entrou numa nova fase na terça-feira com a aprovação de um relatório que servirá de base para a sua provável acusação no Congresso.

O relatório, elaborado após mais de dois meses de investigação pela Comissão de Inteligência da Câmara, que até agora liderou as investigações contra Trump, foi aprovado com 13 votos a favor (todos os democratas) e 9 contra (todos os republicanos).

O texto contém cerca de 300 páginas e vai ajudar o Comité Judiciário da Câmara, que irá realizar a sua primeira sessão sobre o assunto na quarta-feira, a decidir se elabora acusações contra o presidente e recomenda a abertura de um julgamento político contra si.

"As provas da negligência do presidente são esmagadoras, assim como as provas da sua obstrução ao Congresso", indica o relatório, elaborado pela oposição democrática.

No entanto, a disciplina de voto dos republicanos pressagia que Trump não terá problemas em superar o julgamento político no Senado, cujo início se prevê para princípios de 2020.

UMA CRESCENTE PRESSÃO À UCRÂNIA

O documento relata a suposta "campanha de vários meses" da Casa Branca para conseguir que o Governo ucraniano anunciasse publicamente uma investigação sobre um dos potenciais rivais de Trump nas eleições de 2020, o ex-vice-presidente dos EUA Joe Biden.

"(Trump) tentou minar a integridade do processo eleitoral presidencial dos EUA e ameaçou a segurança nacional" do seu país, "subvertendo a política externa em relação à Ucrânia", enfatiza o Comité de Inteligência.

De acordo com o relatório, houve um "'crescendo' drástico" de pressão sobre a Ucrânia desde a chamada de julho de Trump ao presidente ucraniano Volodimir Zelenski até que o tema veio à tona em setembro, graças à denúncia de um informante anónimo.

Naquela época, altos funcionários do Governo -incluindo o vice-presidente Mike Pence e o secretário de Estado Mike Pompeo- estavam envolvidos "numa tentativa de extrair de um país estrangeiro os benefícios políticos que o presidente estava à procura", diz o texto.

"Para convencer o presidente ucraniano a fazer o seu trabalho eleitoral sujo, o presidente Trump condicionou dois atos oficiais a um anúncio público das investigações (de Biden): uma visita muito aguardada à Casa Branca e assistência militar crucial que a Ucrânia precisava para lutar contra a Rússia", resume o relatório.

A ORDEM VEIO DO TOPO

Trump negou que a suspensão de quase 400 milhões de dólares em ajuda à Ucrânia este ano ou a sua relutância em marcar uma reunião com Zelenski tenham algo a ver com a sua insistência de que Kiev investigasse Biden.

No entanto, quase uma dúzia de testemunhas assinalaram durante a investigação que o fez, e o relatório alega que é o próprio presidente que é responsável por esta chantagem da Ucrânia, e não apenas figuras próximas dele, como o seu advogado Rudy Giuliani.

"Várias testemunhas afirmaram que o condicionamento de uma reunião na Sala Oval ao anúncio de investigações para beneficiar a campanha de reeleição do presidente veio do topo: do presidente Trump", diz o texto.

OBSTRUÇÃO "SEM PRECEDENTES"

O relatório também acusa Trump de orquestrar um esforço "sem precedentes" para obstruir a investigação contra si no Congresso, uma acusação que pode dar origem a uma acusação ou a articulação de um julgamento político específico sobre esse assunto.

Trump é "o primeiro e único presidente da história americana a desafiar aberta e indiscriminadamente todos os aspetos do processo constitucional para um julgamento político, ao ordenar a todas as agências e autoridades federais que não cumpram solicitações voluntárias ou obrigatórias", assinala.

UM "IMPEACHMENT" QUE DIVIDE

Por sua parte, o líder da minoria republicana na Câmara dos Representantes, Kevin McCarthy respondeu ao relatório democrata parafraseando a presidente do hemiciclo Nancy Pelosi, que meses atrás disse que um julgamento político era demasiado "divisivo".

"Creio que todos concordamos com o que disse", afirmou McCarthy numa conferência de imprensa, lembrando que Pelosi condicionou o "impeachment" a que o caso contra Trump fosse "conclusivo", "esmagador" e "bipartidário".

"Deve responder à pergunta: O que é conclusivo, o que é esmagador e onde está o bipartidarismo? Porque isso poria fim a este pesadelo", acrescentou.