EFELisboa

Imerso numa corrida contrarrelógio, o socialista António Costa apura as negociações com os seus antigos aliados de esquerda para a execução do Orçamento de 2022 em Portugal e evitar assim a realização de eleições antecipadas que teria consequências para o país.

"Devemos ter humildade para admitir que é sempre possível melhorar", reconheceu o primeiro-ministro depois do fracasso das reuniões realizadas nas últimas horas com seus antigos parceiros da "geringonça", o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista.

O "milagre" que permitiu ao líder socialista ascender ao cargo de primeiro-ministro na passada legislatura -acordo que a priori parecia impossível entre a esquerda -não se repetiu nesta, pelo que Costa, com um Governo em minoria, está condenado a negociar.

A pandemia desgastou os socialistas. Foram os mais votados nas eleições autárquicas de setembro, mas perderam terreno e deixaram escapar a "joia" da República, Lisboa, para as mãos da direita após 14 anos de gestão do PS.

Disseram ter ouvido a mensagem das urnas e apresentaram um Orçamento que beneficia a classe média e aumenta os investimentos. O que consideram suficiente.

Analistas locais falam de um "novo ciclo", a direita prepara-se para lutar pelo poder e a esquerda vê uma oportunidade para pressionar o Governo.

ESQUERDA EM DESACORDO COM AS CONTAS

O Governo ultima os contactos com partidos e agentes sociais nestes dias para desbloquear o Orçamento, embora Costa já tenha avisado que "sob nenhuma circunstância a credibilidade externa da economia portuguesa será colocada em risco".

Os números macro não estão em discussão: Crescimento de 5,5% com 3,2% de défice; dívida pública em 123% e inflação em 0,9%. 6,5% de desemprego e um aumento de 30% no investimento público através dos fundos de recuperação europeus. Reforma tributária que beneficia a classe média e incentivos ao investimento.

O problema está nas letras miúdas e nos temas extraorçamentais advogados pela esquerda.

"Temos que nos tentar aproximar. Não podemos fazer ultimatos", ressalta o primeiro-ministro em alusão às posições do Bloco e dos comunistas. "Estamos dispostos a discutir temas extraorçamentais", admite.

Em cima da mesa estão o Serviço Nacional de Saúde, pensões e salários dos funcionários públicos -que já convocaram greve geral para o dia 12 de novembro-.

O Governo, denuncia o Bloco, propõe "meios simbólicos que não especifica", enquanto o Partido Comunista acusa-o de seguir ordens de Bruxelas para cortar os serviços públicos.

Antecipar eleições após a crise da pandemia "não seria racional", afirma o primeiro-ministro.

O presidente do país, o conservador Marcelo Rebelo de Sousa, também apelou à "racionalidade". Marcelo foi o primeiro a alertar para o custo de uma crise política num país pendente dos milionários fundos europeus.

DIREITA À PROCURA DE LÍDER

Com o alento conseguido pela inesperada vitória do ex-comissário europeu Carlos Moedas em Lisboa, o Partido Social-Democrata pisa no acelerador para ultrapassar a divisão interna e se preparar para uma eventual mudança no calendário eleitoral.

Dois candidatos procuram conduzir o partido no novo ciclo. O seu atual líder Rui Rio, desgastado e com grande contestação interna, e o eurodeputado Paulo Rangel.

Dois perfis muito diferentes. Rio, com uma imagem tradicional, foi acusado de não exercer uma oposição suficientemente forte aos socialistas e de se "agrafar à cadeira".

Rangel, de 53 anos, aparece como o "rosto da esperança" para o PSD e ganhou popularidade desde que dominou a atenção mediática depois de falar abertamente sobre homossexualidade.

Imerso na sua própria guerra interna, o PSD desassocia-se do debate sobre as contas públicas.

"Não é responsabilidade do PSD aprovar o Orçamento”, disse Rangel. Eleições antecipadas em março seria, diz, "normal".

Por Mar Marín