EFELisboa

Ainda não há fila no Elevador da Glória nem esplanadas abarrotadas, mas pouco a pouco os "tuk tuks" voltam a circular e ouve-se mais que português nas ruas de Lisboa, uma cidade que nos últimos anos se virou para o turismo e que agora quer recuperar espaços para os seus moradores.

Está tudo preparado para receber os viajantes em plena pandemia: esplanadas montadas, desinfetantes na mão dos empregados e a marca "Clean & Safe", lançada pela Turismo de Portugal para identificar os establecimentos que cumprem os protocolos de higiene, na porta de lojas e restaurantes.

Mas na praça do Rossio, normalmente cheia de estrangeiros, é apenas avistado um punhado de visitantes com ar perdido a consultar guias turísticos.

É o caso de Jim e Stephanie, um casal oriundo da Bélgica que tinha planeado percorrer Portugal já antes da Pandemia e que, ao não poder cancelar as suas reservas, decidiu manter a viagem.

Aterraram há uma semana -no meio de notícias sobre o aumento da pandemia em Portugal, especialmente na região de Lisboa, que abrange dois terços dos novos contágios- mas, de momento, não se arrependem.

"Algumas das regras seguem-se melhor aqui do que na Bélgica. Não podes entrar nas lojas ou restaurantes sem máscara e as pessoas pedem-te que desinfetes as mãos", conta à EFE Jim, que diz que se sente "mais seguro" que no seu país.

O casal vive uma experiência atípica de Lisboa, que pela primeira vez em décadas pode ser visitada em pleno julho sem enchentes nem filas de espera.

"Devia ser a temporada alta, mas está mais baixo que no inverno", explica à EFE Leonardo, um guia de "free tours" que espera no Rossio que algum turista se interesse pelas suas visitas guiadas.

"Normalmente os espanhóis vêm aos fins de semana", comenta Leonardo, esperançado que a situação mude no sábado.

Apesar da proximidade geográfica e as expectativas criadas pela abertura da fronteira comum, no passado 1 de julho, os espanhóis -a principal aposta do turismo português- são os grandes ausentes nestes dias.

"Este ano há muitos menos turistas, muitos menos espanhóis. Normalmente estamos habituados a ter muitos espanhóis. Mas o turismo em geral está com uma caída de cerca de 90%", relata à EFE José, um dos responsáveis de um estabelecimento especializado nos famosos pastéis de nata.

A maioria das mesas estão vazias. "É um ano para esquecer", lamenta.

Outros são mais otimistas: "Já se nota alguma diferença com a abertura das fronteiras, tanto com a Europa como com Espanha, há mais pessoas na rua e a loja funciona melhor", diz André Moreira, empregado do "Mundo Fantástico da Sardinha Portuguesa".

Esta loja temática dedicada às conservas de sardinha, cheia de luzes, decorações de circo e até um carrossel, é um dos símbolos do "boom" turístico vivido por Lisboa nos últimos anos e um exemplo da mudança da fisionomia da cidade.

Na Baixa e Chiado multiplicaram-se as lojas de souvenirs e alojamentos de Airbnb, que mergulharam a capital num processo de gentrificação e expulsaram muitos lisboetas à periferia.

As autoridades municipais querem aproveitar o travão imposto pela covid para lavar a cara da cidade e recuperar espaços para os habitantes.

"Agora queremos trazer de novo as pessoas que são a alma de Lisboa ao centro da cidade, ao mesmo tempo que a tornamos mais verde e sustentável", assegurou o autarca, Fernando Medina, num artigo publicado recentemente no jornal "The Independent".

A Câmara vai lançar programas para animar proprietários a reconverter antigos Airbnb em casas para "trabalhadores essenciais", como trabalhadores de saúde, professores ou funcionários do setor dos transportes.

De momento, os lisboetas reconquistaram as ruas da sua cidade, assim como as praias.

Em Carcavelos, a meia hora de comboio da capital, ouve-se quase exclusivamente português. Num ano normal, em julho, estaria a abarrotar de estrangeiros, mas agora as toalhas, estendidas com uma distância prudente, são ocupadas por portugueses e brasileiros residentes, refere Jorge Humberto, que foi hoje a banhos.

Uma impressão partilhada pelos funcionários de restaurantes e bares de praia.

"Neste momento não sentimos turismo", conta à EFE Bernardo Moreira, filho do dono de uma marisqueira, que assinala que já recebeu alguns franceses e alemães.

O resto do verão é visto com ceticismo e esperanças colocadas no país vizinho: "É um ano atípico, um verão que nunca tínhamos vivido antes com esta pandemia. Não sabemos se os espanhóis vão de férias fora ou se vão querer ficar em Espanha".

Por Paula Fernández