EFEEstrasburgo (França)

A confirmação pela mínima da alemã Ursula von der Leyen como presidente da Comissão Europeia aponta a uma legislatura com um Parlamento Europeu mais fragmentado onde se espreitam maiorias em transformação num momento crucial para a UE, com o regresso do fantasma do "brexit" e outros desafios.

A presidente eleita passará o verão em Bruxelas, onde nasceu e passou a sua infância, desenhando a equipa de comissários para pôr em prática a ambiciosa agenda climática, social e fiscal que prometeu ao Parlamento.

Particularmente importante será o capítulo climático, com o qual iniciou esta terça-feira o seu discurso para convencer o Parlamento Europeu que a apoiasse para ser presidente da Comissão e que lidera também os seus guias políticos para a legislatura, onde prometeu um novo pacto verde para a UE nos seus primeiros cem dias de mandato.

Mesmo grupos que não a apoiaram, como os Verdes, prometeram-lhe cooperação leal em matéria de luta contra a crise climática, sinal que as maiorias neste PE se vão afastar da aritmética tradicional dos grandes grupos e dependerão um pouco mais do tema que estiver sobre a mesa.

Também poderá penetrar no seu mandato o "brexit", fora da agenda europeia desde a última concessão de um adiamento às negociações em abril e que promete voltar com força a Bruxelas após a eleição do novo primeiro-ministro britânico, já que ambos candidatos ao cargo são partidários de pedir à UE uma renegociação do acordo.

O Reino Unido deverá sair da União Europeia na véspera do primeiro dia da legislatura de Von der Leyen, mas o Governo conservador já pediu dois adiamentos às negociações e não é descartável que continuem a estender mais se querem evitar um "brexit" sem acordo.

Fora do discurso de Von der Leyen ficaram âmbitos como a política industrial, de concorrência ou exterior, assim como a sua postura relativamente às tensões comerciais no palco mundial, e sobre elas terá que assumir uma posição nas próximas semanas, especialmente ao atribuir os comissários encarregados de cada pasta.

O Parlamento Europeu terá um papel relevante em todas estas questões na sua função de colegislador, para uma legislatura que se iniciou com o pequeno terremoto que a eleição pela mínima da própria Von der Leyen representou.

Só nove votos marcaram a diferença entre uma situação inédita na União Europeia que teria obrigado os países a nomear um novo candidato alternativo, e a realidade final, na qual uma vantagem exígua é igualmente válida que uma mais ampla, segundo disse a própria presidente eleita.

A alemã deveria ter somado mais de 400 votos com os 182 do seu grupo, o Partido Popular Europeu, quase todos os 108 centristas do Renovar a Europa, uma centena dos social-democratas e um punhado de outros grupos que lhe anunciaram o seu apoio, como os ultraconservadores polacos do Lei e Justiça ou o populista Movimento Cinco Estrelas italiano.

O voto, no entanto, é secreto, o que impede de conhecer com exatidão quantos deputados se rebelaram relativamente à postura dos seus grupos ou quantos anunciaram publicamente que a apoiariam e mudaram de opinião na privacidade do voto anónimo.

Algumas fontes apontam a que a fuga de votos pode ter sido do seu próprio partido, o PPE, pela aparência de esquerda de muitas das suas propostas em matéria social que os social-democratas assumem como um triunfo do seu programa, enquanto outras vozes acreditam que mais socialistas do que os esperados acabaram por ir contra a direção marcada pelos seus partidos.

"Não sei quem votou por mim, sei que era muito difícil chegar a uma maioria", reconhecia Von der Leyen na noite da terça-feira após o voto, minimizando a importância de que partidos como o ultraconservador Lei e Justiça, em tensão com Bruxelas devido à reforma judicial que impulsionou na Polónia, estejam a assegurar que a alemã validou a presidência da CE graças aos seus votos.

O regresso do verão estará marcado pelo exame do Parlamento Europeu aos comissários designados pelos países, entre os quais Von der Leyen quer paridade total, e o voto do conjunto da cimeira da próxima Comissão no plenário do Parlamento.

A já ex-ministra alemã da Defesa vai-se sentar pela primeira vez na poltrona do escritório presidencial da Comissão a 1 de novembro para um mandato de cinco anos, até 2024.

Laura Zornoza