EFELisboa

O arquipélago dos Açores, abrigado do pior golpe da covid-19 a 1.500 quilómetros de Portugal continental -e com uma das suas ilhas ainda sem conhecer o vírus- vai este domingo às urnas para renovar o parlamento e o governo desta região autónoma.

As eleições chegam com mais novidades pelo seu contexto do que na sua substância, dado que as sondagens preveem poucas surpresas: o Partido Socialista vai recuperar a sua maioria absoluta no arquipélago, que governa desde 1996, seguido pelo PSD (Partido Social Democrata) de centro-direita.

Esta é pelo menos a projeção de uma das últimas sondagens antes das eleições, cuja única novidade será a entrada na câmara regional do partido de extrema-direita Chega, fundado no ano passado, que as sondagens consideram como a futura quarta força política nos Açores com 3% dos votos.

Enquanto se aguarda a confirmação dos augúrios, as medidas de segurança causadas pela pandemia estão a concentrar a atenção no território português com a menor incidência de covid, e onde acontecem cenas impensáveis no resto do país, tais como áreas sem pessoas infetadas ou jogos de futebol com adeptos.

DENSIDADE E CONTROLOS, CHAVE PARA TER MENOS CASOS

Os Açores, com pouco mais de 246.000 habitantes, é o território português que melhor resiste ao convite do coronavírus. Do total de 109.541 casos positivos e 2.245 mortes de Portugal desde o início da pandemia, as ilhas são responsáveis por apenas 361 infeções e 16 óbitos.

Números a anos-luz das áreas mais afetadas, a região de Lisboa e Vale do Tejo, com um acumulado de 50.395 infeções, um fosso largamente explicado pela densidade populacional e pela diminuição da frequência das viagens para esta área, um destino muito turístico para os portugueses afetado pela pandemia.

Mas os controlos efetuados à entrada deste arquipélago do Atlântico tiveram também uma influência decisiva.

Desde meados de junho, os passageiros que chegam aos Açores devem apresentar um teste de coronavírus negativo realizado 72 horas antes ou serem testados à chegada, no mesmo aeroporto, e permanecer em isolamento até que o resultado seja conhecido.

Esta medida permitiu o controlo de casos provenientes do exterior do território, após a decisão do Governo Regional de impor uma quarentena aos visitantes, que se manteve desde finais de março até maio, ter sido anulada judicialmente.

UMA ILHA "COVID FREE" E ESTÁDIOS DE FUTEBOL COM PÚBLICO

A partir de aí, a densidade populacional determinou a incidência, com a ilha de São Miguel, a mais povoada com 137.830 habitantes, a ser a que tem mais casos, 264 infeções.

No outro extremo está a ilha do Corvo, no ponto mais ocidental, que não registou um só caso entre os seus 430 habitantes, pelo que se pode considerar "covid free" (livre de covid).

Perante este cenário, melhor que o do outro arquipélago português, a Madeira (também com 361 contágios totais, mas com uma densidade populacional maior), os Açores tornaram-se em laboratório para o relaxamento de algumas medidas, como o regresso de público aos estádios de futebol.

O Santa Clara foi o primeiro anfitrião de adeptos no ano da covid graças a um acordo entre a Liga portuguesa e as autoridades de saúde, que permitiram na passada terceira jornada ter o Estádio de São Miguel, em Ponta Delgada, a 10% da capacidade, para o confronto com o Gil Vicente.

Foram 1000 pessoas, o máximo, número que voltará a ser permitido este sábado no jogo entre o Santa Clara e o Sporting para a quinta jornada.

VOTO ANTECIPADO POR COVID

Contudo, os Açores não relaxaram e implementaram medidas adicionais para que as eleições não representem aglomerações e contágios.

Para o evitar permitiram que pela primeira vez em comícios regionais se vote de forma antecipada em mesas eleitorais habilitadas, uma fórmula até agora apenas prevista em eleições presidenciais, nacionais e europeias.

De momento, apenas 3.541 eleitores de um número acima de 228.000 se inscreveram nesta opção.

Os açorianos podem eleger entre 13 partidos para compor os 57 lugares do parlamento regional.

Nas últimas eleições regionais, em 2016, os socialistas venceram com 46,6% dos votos, seguidos do PSD, com 30,89%.

Por Cynthia de Benito