EFELisboa

O Bloco de Esquerda, um dos parceiros da maioria que apoiou o governo na anterior legislatura portuguesa, ofereceu hoje, com condições, ao socialista António Costa, indigitado para liderar um novo Executivo, um acordo para toda a que acaba de começar.

O Bloco, cujo apoio basta a Costa para governar, estendeu a mão ao primeiro-ministro numa reunião realizada na sede do partido, na qual lhe ofereceu uma proposta de "entendimento inicial".

A proposta, explicou a líder bloquista, Catarina Martins, está baseada nas prioridades que o seu partido já tinha anunciado, como acabar com as últimas medidas de austeridade da troika na legislação laboral, mais investimento público em saúde, habitação e transportes e uma resposta à emergência climática.

Os socialistas deverão analisar agora a proposta, da qual não foram publicados mais detalhes, e prometeram organizar nos próximos dias "reuniões de trabalho para ver quais são as condições de convergência e o grau de compromisso" entre ambos partidos.

"Foi uma reunião muito produtiva que nos permitiu avaliar quais são as condições de trabalho em conjunto na próxima legislatura. Convergimos na vontade de prosseguir o trabalho conjunto. Os moldes concretos é algo que continuaremos a estudar", disse Costa à imprensa após a reunião.

Ao contrário de há quatro anos, basta aos socialistas o apoio do Bloco para garantir o seu êxito no Parlamento.

O Partido Socialista (PS) conseguiu 106 deputados -embora poderá obter mais algum quando forem atribuídos os quatro que procedem do voto no exterior -e faltam-lhe dez para a maioria absoluta; o Bloco conseguiu 19.

Mesmo assim, Costa não deixou de procurar consensos com mais partidos, pelo que incluiu outros partidos de esquerda na sua maratonista jornada de contatos desta quarta-feira, que o levou também à sede do seu outro ex-parceiro, o Partido Comunista Português (PCP).

Ao contrário do Bloco, os comunistas rejeitaram qualquer tipo de acordo por escrito para a legislatura e reiteraram que decidirão "caso a caso" cada proposta que os socialistas apresentarem.

Esta postura foi reiterada pelo líder do partido, Jerónimo de Sousa, que lembrou hoje que o PS se juntou com a direita durante a passada legislatura em matérias nas quais não contava com o apoio dos seus parceiros de esquerda, como as TVDE ou a legislação laboral.

A ronda de contatos começou esta manhã com o Livre, novidade no plenário após conseguir uma deputada, Joacine Katar Moreira.

Katar Moreira reiterou após a reunião que estão disponíveis para participar numa "união multipartidária" com a esquerda, mas não pensam num acordo bilateral só com os socialistas.

Costa reuniu-se depois com o animalista PAN (Pessoas, Animais e Natureza), cujo líder, André Silva, disse ontem que também não se quer atar aos socialistas durante quatro anos mas que está disponível para acordos sobre temas pontuais.

O PAN, que passou de um a quatro deputados, manteve hoje a mesma postura, embora garantindo que "contínua tudo em aberto".

O indigitado primeiro-ministro, por sua parte, não se rende: ressaltou que o PS e o PAN estão unidos por prioridades como "acelerar a transição energética" ou "o bem-estar animal" e estudarão "se isso se pode traduzir num acordo de legislatura".

Costa também se reuniu com Os Verdes, que estão disponíveis para chegar a "apreciações conjuntas" em assuntos como orçamentos ou moções de censura e que já anunciaram que votarão em favor de todas as propostas que busquem "justiça social e equilíbrio ambiental".

Após ser indigitado primeiro-ministro ontem à noite pelo presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o socialista deverá apresentar o seu programa de Governo na Assembleia da República, previsivelmente no final de mês, e conseguir que não seja rejeitado para que o seu Executivo saia em frente.

Paula Fernández