EFELisboa

Com a campanha para as eleições legislativas do dia 30 em Portugal prestes a começar, o Partido Comunista Português (PCP) abre a porta à renovação da "convergência" com o Partido Socialista, mas apenas sobre "soluções concretas" e não para "arranjos de poder".

"A nossa disponibilidade para a convergência com o Partido Socialista mantém-se. Temos de saber se o PS está interessado nesta convergência", afirmou esta quinta-feira João Ferreira num encontro com correspondentes estrangeiros.

Ex-deputado europeu e vereador comunista em Lisboa, Ferreira é um dos dirigentes do PCP que se encontra entre aqueles de quem se fala para o processo de renovação do partido, liderado desde 2004 por Jerónimo de Sousa, de 74 anos, que será hoje operado de urgência para um bypass que o vai afastar da campanha.

Sob a liderança de Sousa, o PCP aderiu ao pacto de esquerda que levou o socialista António Costa ao Governo em 2015, a popular "geringonça", mas a aliança acabou após as eleições legislativas de 2019 e o distanciamento refletiu-se na rejeição comunista do Orçamento de 2022.

Os desacordos sobre questões delicadas, tais como o salário mínimo -agora fixado em 705 euros-, que o PCP propôs aumentar para 800 euros no final deste ano, levaram à rutura.

As contas de Costa acabaram por não passar no processo parlamentar e a crise política levou a a uma antecipação eleitoral a meio da legislatura.

CONVERGÊNCIA 2022

O PCP não descarta agora uma nova aproximação, mas "não estamos interessados nos arranjos de poder que depois não resultam em nada", mas sim "na convergência para soluções concretas", enfatiza Ferreira.

"Não sabemos se o Partido Socialista está ou não está interessado. É este quem tem de responder se está interessado", ressalta o dirigente comunista, que acusa o PS de "intransigência".

As eleições do dia 30 "podem ajudar a criar um quadro político para contribuir a estas soluções", opina, seguro de que uma hipotética maioria absoluta dos socialistas não contribuiria as respostas que o país precisa.

"O que pode ajudar o PS a não ter a posição intransigente que tem é uma relação de forças que crie as condições para que a esquerda tenha uma influência mais forte do que tem tido até agora", resume. Ou seja, uma maioria simples que obrigue os socialistas a negociar.

Uma possibilidade apoiada pelas últimas sondagens, que mantêm os socialistas como a força mais votada -mas longe de uma maioria absoluta-, e com a direita a cair ligeiramente -a uma distância de 10 pontos-, enquanto o PCP perde terreno.

RENOVAÇÃO DO PCP

Ferreira não quer entrar no debate sobre a renovação da liderança no PCP, o partido comunista mais ortodoxo da Europa -contrário à eutanásia, por exemplo-, que assiste ao envelhecimento das suas bases e ao castigo nas urnas.

Os problemas de saúde de Jerónimo de Sousa, que em 2022 celebra o seu 18º aniversário na secretaria geral do PCP, podem acelerar a substituição, embora o político comunista saliente que o partido confia de que o seu líder retomará a atividade no final da campanha "com mais vigor e mais força".

Porém, a do CDU -a aliança eleitoral do PCP e os Verdes- "é uma campanha de massas, não de apenas um homem" e "temos razões para encarar a batalha com confiança", afirma Ferreira, de 43 anos e um veterano nas lides eleitorais, com seis eleições nas suas costas -europeias, municipais e presidenciais- nos últimos oito anos.

Apesar do seu otimismo, o PCP perdeu um terço dos seus deputados nas legislativas de 2019 e as últimas sondagens apontam para uma queda na intenção de voto em janeiro, com apenas 5,1%.

Por Mar Marín