EFELisboa

"Faz mais sentido, neste momento, distribuir vacinas de forma equitativa do que avançar para a terceira dose", diz José Manuel Durão Barroso, presidente da Aliança Global de Vacinas (Gavi), numa entrevista com a Agência EFE em Lisboa, na qual reconhece que a política "falhou" no combate à pandemia.

"Compreendo que a primeira preocupação de um Governo é proteger a sua própria população", continua, e "é uma decisão que respeitamos", mas "em termos globais existe um problema de injustiça", aponta Durão Barroso, ex-presidente da Comissão Europeia (2010-2014).

"Há países que estão na terceira dose e outros onde nem as populações mais vulneráveis tiveram acesso à vacina.

As diferenças, lamenta, são abismais. De 70% da população vacinada em média nos países desenvolvidos, para 32,7% nos países em desenvolvimento e apenas 2,3% nos países pobres.

"Desde o ponto de vista da justiça, seria melhor uma distribuição global mais equitativa seria melhor", ressalta durante uma conversa telefónica com a EFE.

O antigo primeiro-ministro português (2002-2004) apela a um argumento de "interesse próprio": "Ninguém está seguro até que todos estejam seguros".

Como tal, "o que faria mais sentido é investir na imunização global", uma tarefa titânica que não tem um horizonte claro.

PATENTES E CONHECIMENTOS

Durão Barroso atribui a desigualdade no acesso às vacinas a três grandes problemas: restrições às importações impostas por alguns países, acumulação de doses por países desenvolvidos e falhas na produção e distribuição.

Agora que "começa a haver vacinas para todos", os países ricos têm de avançar nos donativos para que o Covax -o Fundo de Acesso Global para Vacinas- consiga no primeiro semestre do próximo ano o objetivo de distribuir 1.100 milhões de doses inicialmente previsto para dezembro.

E o papel das gigantes farmacêuticas e das patentes? As empresas farmacêuticas fixaram os preços de acordo com o mercado da oferta e da procura, justifica Durão Barroso. "É um mercado e as empresas têm os seus custos. Mas "podemos fazer mais", reconhece.

A questão das patentes é "complexa" e o presidente da Gavi está empenhado na transmissão do "conhecimento".

"Se me dessem uma receita de um chef de 3 estrelas Michelin eu não seria capaz de fazer o prato", diz. E recorda que a Moderna anunciou que não tomará medidas legais contra quem replicar a sua fórmula. "Sabem que ninguém o vai fazer. Uma vacina é um processo, é muito complicado, não é apenas um produto".

"É por isso que defendemos que deve haver transferência de know-how (conhecimento)", para que as grandes empresas e organizações internacionais possam trabalhar com entidades em regiões em desenvolvimento.

"A questão das patentes é mais complexa, e sendo realista, não é previsível que venha a haver uma quebra de patentes. Se houvesse, deixaria de haver razões para que as empresas continuassem a investir na investigação".

"Em termos estratégicos, a melhor solução é a transferência de conhecimento e tecnologia", defende.

A POLÍTICA FALHOU

A pandemia demonstrou que "não estávamos preparados, nem mesmo os países mais ricos e poderosos".

"O mundo inteiro fala de ameaças terroristas, nucleares, tecnológicas… são muito sérias, mas há uma muito real, que é a pandemia. É cientificamente certo que haverá mais", afirma. "Vamos ter mais pandemias e não estamos preparados para elas".

Frente à covid, "a ciência reagiu bem, mas a política falhou". Como tal, "é importante fazer um esforço geral para que a próxima pandemia nos encontre melhor preparados".

Os planos do G20 para criar um grupo de trabalho podem ser uma fórmula, mas deve haver regras claras para os Estados, tais como "transparência".

"Se houver uma nova infeção viral, deve haver uma comunicação imediata. Precisamos de certeza absoluta".

Mas, resume, "sendo objetivos e justos, os problemas de grandes divisões e desigualdades permanecem".

Por Mar Marín