EFELisboa

Estudantes de enfermagem para uma das tarefas chave na contenção do coronavírus: os rastreios epidemiológicos. Esta é a proposta das autoridades portuguesas que causou polémica entre os enfermeiros do país, que argumentam que há mais de 400 colegas desempregados que se podiam encarregar da tarefa.

Esta é a última controvérsia sanitária em Portugal, país imerso numa segunda vaga em que o contágio sobe para mais de 2.000 casos por dia, que começa a causar "enorme pressão" nos hospitais públicos.

Tal foi admitido pela diretora da Direção Geral da Saúde (DGS), Graça Freitas, antes de anunciar que os estagiários de enfermagem irão em breve dar uma ajuda às equipas atuais a custo zero.

RASTREIOS COMEÇAM A TRANSBORDAR

A ideia ainda está em processo, mas espera-se que sejam estudantes "dos últimos anos, acompanhados pelos seus professores", disse Freitas, que não especificou quando os estagiários vão chegar ou quantos serão.

Freitas adiantou que a intenção é que, após receberem "alguma formação", comecem a colaborar nestes rastreamentos, que não deverão demorar mais de 12 horas após a deteção de um positivo, um prazo que começa a não ser cumprido.

Há especialistas que devem fazer até 500 contactos, segundo a Associação de Médicos de Saúde Pública, que descreve um transbordo que afeta o controlo do vírus: sem localizar as pessoas que estiveram com as que deram positivo, é impossível quebrar as cadeias de transmissão.

Segundo as autoridades portuguesas, a taxa de sucesso do rastreio é atualmente de 60%, ou seja, "60% das pessoas (infetadas) ainda podem dizer de quem contraíram a doença".

"Neste momento ainda conseguimos saber quem contagiou quem", resumiu Freitas.

ENFERMEIROS CONTRA

Para a Ordem dos Enfermeiros de Portugal, a proposta é uma afronta.

"Tal medida não se justifica nesta fase, quando ainda existem centenas de enfermeiros desempregados", diz a Ordem num comunicado em que anuncia a sua "oposição frontal" à ideia.

O grupo mantém que existem pelo menos 412 enfermeiros desempregados "com disponibilidade imediata, 300 dos quais nunca foram contactados e cerca de 100 rejeitaram as atuais condições contratuais oferecidas".

As condições, denunciam, são "contratos de apenas quatro meses", que aprofundam a precariedade de uma profissão que se sente maltratada há vários anos, com salários líquidos inferiores a 1.000 euros para 80% deles, de acordo com as contas estabelecidas num artigo da presidente da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco.

A chegada da pandemia deu a estes profissionais novos argumentos para pedir aumentos que foram incluídos no orçamento de 2021, em plena negociação.

Ouvir agora a proposta de ter estagiários, que não vão receber qualquer remuneração ou ajuda económica para o transporte ou alimentação, sublinham à Efe fontes da Ordem dos Enfermeiros, é mais uma chapada na cara.

"ESTAGIÁRIOS NÃO TÊM A EXPERIÊNCIA NECESSÁRIA"

"Um estagiário pode fazer o rastreio, mas a forma como são feitos e o tratamento dos resultados, e até redirecionar as perguntas… Quando perguntamos certas coisas num contexto específico como este, temos de saber do que estamos a falar a fim de conduzir toda a entrevista e obter a descrição que nos interessa", explica a Efe Marita Bento.

Bento é uma enfermeira com 10 anos de experiência no Hospital de Vila Franca de Xira, a cerca de 35 quilómetros ao norte de Lisboa, que valoriza as boas intenções dos estagiários, mas salienta que podem não ser capazes para realizar esta tarefa.

"Quando temos colegas a fazer estes rastreios e não enfermeiros ou especialistas em saúde comunitária, obviamente toda a validade deste processo é posta em causa, porque não têm conhecimento desta prática", diz.

"Todos sabemos que as coisas estão mal, porque vemos as notícias, mas apenas aqueles que estão no terreno, nas urgências ou nos cuidados primários, e que lidam com doentes de covid; apenas aqueles que conhecem esta realidade podem conduzir estes rastreios da forma mais apropriada".

Por Cynthia de Benito