EFELisboa

Ninguém o dá como vencedor, mas André Ventura, candidato da extrema-direita às presidenciais portuguesas, conseguiu um inusitado protagonismo com uma estratégia de crispação que distorceu uma campanha eleitoral já por si questionada num país confinado devido à covid-19.

As aspirações do líder do Chega -o partido de extrema-direita que entrou em 2019 no campo político português- permitiram-lhe medir com o presidente, Marcelo Rebelo de Sousa -o político mais popular do país e claro favorito para revalidar o seu cargo- em debates televisivos em "prime time".

Uma plataforma que Ventura aproveitou bem. As sondagens concedem-lhe um terceiro lugar -alguns o segundo- entre os sete candidatos às presidenciais do próximo dia 24. 10% dos votos. Um salto gigantesco considerando que nasceu como dirigente com o Chega em 2019 com 1% dos votos.

Ventura, de 38 anos, conseguiu gerir o descontentamento popular, a crise acentuada pela pandemia e o auge da extrema-direita na Europa para ganhar peso na política portuguesa, chegando a tornar o partido, em finais do ano passado, na chave para a formação de Governo nos Açores.

Ex-comentador desportivo, licenciado em direito e consultor, Ventura lidera um partido que se define como "liberal e conservador", mas que se alimenta com uma mensagem populista copiada da extrema-direita europeia: o Vox em Espanha ou a Frente Nacional de Marine Le Pen em França.

CRISPAÇÃO COMO ESTRATÉGIA

Com a crispação como "modus operandi", Ventura mantém um inusitado protagonismo num país caracterizado pela contenção e consensos políticos e pisou o acelerador numa campanha eleitoral insólita, dominada pela frustração e cansaço dos portugueses com um trágico recorde de vítimas da pandemia.

O "pescador" André Ventura conseguiu tirar bom proveito deste "rio agitado" vivido em Portugal.

"Ventura introduziu a dimensão de que a classe política portuguesa era elitista, relativamente moderada, e ele introduziu todos os temas. É um discurso típico da direita radical acompanhado de insultos generalizados à classe política. Como tal, o evento político da campanha, a novidade, foi Ventura", explica à Efe António Costa Pinto, professor de Ciências Políticas na Universidade de Lisboa especializado em movimentos autoritários.

Sobre o líder do PSD, Rui Rio, chegou a dizer que é um "travesti de direita", criticou Marisa Matias, do Bloco, por pintar os lábios de vermelho, e obrigou Marcelo Rebelo de Sousa a traçar distâncias: "Somos direitas distintas".

Ventura nunca teve tanta atenção mediática. Até a conhecida modelo Sara Sampaio lhe deu uma publicidade involuntária nas redes ao criticá-lo. Os simpatizantes do Chega atacaram por sua vez a modelo. "Os fachistas, machistas, racistas, etc., saíram todos das suas tocas", respondeu ela.

Chega e Ventura "nadam" bem no confronto. No passado verão provocaram uma tempestade política pela sua defesa do racismo, e o partido chegou a submeter a votação interna uma proposta para retirar os ovários às mulheres que abortam. Uma aberração até para o próprio partido, que acabou por recusá-la.

COVID E A "RECONQUISTA" DA EXTREMA-DIREITA

Nada parece travar Ventura, nem a tragédia da covid, que deixa em Portugal mais de 9.000 mortos. Nesta campanha tem furado reiteradamente o distanciamento social e, com o país confinado, organizou um jantar com 170 simpatizantes num espaço pequeno e fechado.

As suas atitudes obrigaram a dar explicações no Parlamento ao primeiro-ministro português, o socialista António Costa, que pede por um lado aos portugueses que não saiam de casa e admite, por outro, que os atos de campanha -até os excessos de Ventura- estão protegidos pela lei.

No meio das críticas, o líder da extrema-direita cresce e vai contra um dos símbolos "intocáveis" de Portugal: A Revolução dos Cravos que pôs fim à ditadura salazarista.

"Enquanto outros perdem tempo a cantar 'Grândola' (o hino da revolução), nós não nos esquecemos que o nosso foco é Portugal. Se não gostam, emigrem para Cuba ou Venezuela…", diz Ventura, enquanto proclama uma "nova reconquista".

"Fez uma campanha muito agressiva, com muita hostilidade, ao contrário dos restantes candidatos, e isso agarra os meios de comunicação e contribui que muita gente o vá ver nas redes sociais", admite a politóloga Marina Costa Lobo.

"É um momento de grande exposição ao público e ao eleitorado e uma oportunidade para consolidar a marca, o seu nome e o do seu partido", resume.

O seu discurso "não é uma surpresa" para Mamadou Ba, líder da SOS Racismo. "O Chega cavalga no descontentamento da parte mais frágil da sociedade portuguesa, com a desigualdade, a vulnerabilidade económica", opina o ativista português, que vê em Ventura um "oportunista político".

Como admitiu o primeiro-ministro português esta semana no Parlamento, a lei impede limitar a atividade política, mas, ressaltou, "os eleitores devem ver a forma em que cada candidato se comporta nesta campanha".

Por Mar Marín