EFELisboa

Portugal vive esta segunda-feira a ressaca de umas eleições que terminaram com o triunfo anunciado do conservador Marcelo Rebelo de Sousa para a Presidência, a caída da esquerda e o crescimento da extrema-direita com André Ventura.

Confinado devido à pandemia, o país optou pela continuidade e a moderação representada pelo conservador Rebelo de Sousa -que repete o mandato com 60,7% de votos-, castigou os partidos de esquerda -os seus três candidatos tiveram apenas 20%- e despejou o caminho à extrema-direita, num ato marcado pela abstenção -60,5%- que confirma o distanciamento entre a sociedade e os políticos.

"Esta é uma noite histórica em que a direita em Portugal se reconfigurou completamente. Pela primeira vez um partido declarado antissistema rompeu o espectro da direita tradicional". Ventura, líder do Chega, que com 12% dos votos foi o terceiro candidato mais votado nas presidenciais, confirmava a sua intenção de utilizar o seu caudal eleitoral para agitar o tabuleiro político português.

Com o avanço de Ventura, que se estreou com o Chega em 2019 com apenas 1% dos votos, Portugal deixa de ser uma exceção na Europa e junta-se à lista de países onde a extrema-direita se consolida como força minoritária.

GRETAS NO BIPARTIDISMO

"Não haverá governo sem o Chega nos próximos anos". A frase de Ventura pronunciada ao toque da meia-noite de domingo é um aviso para navegantes. Não em vão, o partido já foi chave para a governabilidade nos Açores.

Embora as eleições presidenciais tenham demonstrado que Portugal olha para o centro com a vitória do conservador Rebelo de Sousa, a extrema-direita capitalizou o descontentamento dos grandes partidos -socialistas e social-democratas- e minou as suas bases.

Ventura está inclusivamente a fazer progressos no Alentejo, um bastião tradicional do Partido Comunista.

O Chega quebrou a barreira social no seu eleitorado, diz o analista António Costa Pinto. "A sua base social já é multiclassista", com apoio nas zonas rurais e entre a classe média-alta nas zonas urbanas.

Num contexto de crise social e económica, como a causada pela pandemia em Portugal, "há uma perda de consciência, uma desilusão, não exatamente com a democracia mas com os partidos políticos tradicionais", diz Isabel David, professora de ciências políticas da Universidade de Lisboa.

"Se não houver uma resposta clara, mesmo a nível da União Europeia, se não houver apoio às famílias e às empresas, nem políticas claras de apoio social e económico, existe um risco real de colapso dos sistemas políticos tradicionais na Europa", adverte.

UMA PRESIDÊNCIA FORTE EM TEMPOS DE PANDEMIA

A de Rebelo de Sousa, de 72 anos, esteve longe de ser uma presidência "decorativa". Durante os cinco anos do seu primeiro mandato, exerceu com contundência as suas prerrogativas, como o direito ao veto: 23 vezes. Foi um presidente que esteve no centro da vida política do país.

Tudo aponta que no seu segundo e último mandato vai estar ainda mais presente.

"Já não está preocupado por nada em termos da sua sobrevivência política e tem uma alta taxa de popularidade", ressalta Costa Pinto.

A prioridade nesta nova etapa, adiantou Rebelo de Sousa na noite de domingo, será o combate à pandemia. Vai ser um mandato difícil no meio de uma crise sem precedentes.

Pode isto afetar as suas boas relações com o Governo do socialista António Costa? Pode aumentar as discrepâncias, coincidem os analistas, mas o problema fundamental do Governo não virá de Rebelo de Sousa mas sim da sua capacidade para manter as alianças com a esquerda.

MODERAÇÃO PARA UM GOVERNO EM MINORIA

Um dos primeiros a felicitar Rebelo de Sousa pelo seu triunfo foi o socialista António Costa, o primeiro-ministro português, que governa em minoria com acordos ocasionais com a esquerda e que encontrou um ponto de equilíbrio com o presidente conservador benéfico para ambas as partes.

Foi por isso que o encorajou a manter esta "frutífera cooperação institucional" no seu segundo mandato.

Rebelo de Sousa implica estabilidade e moderação na presidência, dois fatores decisivos num país castigado pela crise. Por isso foi a grande aposta de Costa para as presidenciais.

O Partido Socialista, que não apoiou oficialmente a candidatura da antiga eurodeputada socialista Ana Gomes -segunda no domingo mas uma das grandes derrotadas da noite, com 13% dos votos, apenas um ponto à frente de Ventura- conseguiu evitar o desgaste desta eleição.

Uma grande parte do eleitorado socialista votou em Rebelo de Sousa e o Governo conseguiu "fugir destas eleições", aponta o analista António Costa Pinto.

Os grandes perdedores da esquerda foram o Bloco -a sua candidata caiu de 10% nas eleições presidenciais anteriores para 4%- e o Partido Comunista, obrigado a uma renovação interna adiada durante demasiado tempo.

Os aliados naturais do Governo socialista saíram lesionados destas eleições e o desafio agora é assegurar a governabilidade em tempos de pandemia.

MUDANÇAS NUM ANO ELEITORAL

O próximo desafio eleitoral em Portugal está muito próximo. Depois do verão, o país vai realizar eleições municipais. Poderá o Chega manter os seus 10%? Será que os partidos maioritários irão conservar a sua vantagem?

O Chega tornou-se num ator chave para a direita e cresceu em grande parte às custas do PSD, partido liderado por Rui Rio.

Rio, que tem uma forte contestação interna no seio do PSD, evitou a autocrítica e concentrou-se na queda da esquerda na sua análise eleitoral.

Contudo, "vai ser bastante complicado formar um Governo à direita sem o Chega", prevê Isabel David.

Ventura tem uma vocação de crescer e aproveitou a campanha para percorrer o país e criar uma estrutura territorial que lhe faltava.

Embora a votação nas eleições presidenciais não possa ser extrapolada para outras eleições, se não houver uma resposta forte à crise, adverte David, o crescimento da extrema-direita "é inevitável".

Por Mar Marín