EFEBarrancos (Portugal)

As crianças como verdadeiros guardiães do património natural, ecológico e artístico do Alentejo luso e da Extremadura espanhola, é esse o objetivo para 2020 do singular festival português "Terras sem sombra".

Após quinze edições, e depois de conseguir ligar o património natural do Alentejo à música erudita através de concertos em igrejas do sudoeste luso, "Terras sem sombra" vai oferecer na próxima edição uma versão infantil que chegará ao norte do Alentejo e à região da Extremadura.

Segundo avançou à EFE a sua diretora artística, Sara Fonseca, "as crianças terão um protagonismo total, com o papel principal da natureza e a ecologia e o património artístico como complemento".

As crianças verão nascer um cordeiro, conhecer como se tosquia uma ovelha, o seu processo de cardado, participar junto a estilistas na elaboração de padrões e confeccionar com a ajuda de modistas os vestidos que serão usados pelos cantores de um concerto de ópera ao qual vão assistir.

Depois do "Terras sem sombra" ter dado este ano o salto a Espanha com programação nas localidades de Olivença e Valencia de Alcántara, o plano é que a sua versão infantil também se possa realizar em pontos da Extremadura, explicou Fonseca, embora ainda não está definido o programa com o Governo extremenho.

Com o objetivo de continuar a crescer, a edição de 2020 também vai dar destaque à herança judaica da Raia luso-espanhola, com um programa especial em Castelo de Vide, uma das judiarias mais conhecidas de Portugal, fronteiriça com Badajoz, e irá pela primeira vez a norte da região do Alentejo.

A ideia deste festival nasceu há uma década e meia, pelas mãos do historiador de arte portuguesa José António Falcão, que conseguiu levar a igrejas do Alentejo a música mais lírica.

"Não era justo que se estivessem a restaurar igrejas no Alentejo e apenas se abrissem para oficiar missas; era preciso dar-lhes uma utilidade maior", apontou Fonseca, diretora-executiva de um modesto e romântico festival realizado entre janeiro e julho com um orçamento de apenas 350.000 euros.

As edições iniciais do "Terras sem sombra" centraram-se na valorização de importantes enclaves patrimoniais que se tornaram em palcos de concertos que, longe de ser elitista, chegavam a toda a população do meio rural do Alentejo.

O primeiro concerto, em novembro de 2003, foi realizado na catedral de Beja, com um variado repertório do compositor barroco alemão Georg Philipp Telemann.

O sonho continuou anos depois com uma visão mais global que servisse de altifalante da riqueza cultural de territórios "deprimidos" do Alentejo que, por sua vez, são o paraíso da devesa, o porco ibérico, a cegonha e o abutre negro ou o refúgio de sobreiros centenários.

Uma conjunção evidente, por exemplo, em Barrancos, com um meio presidido pelo Castelo de Noudar, às margens do rio Ardila, que une Portugal e Espanha, que, além de fazer parte de um montado, é um destino de observação de estrelas pela escassa poluição lumínica.

"Terras sem sombra" levou este ano os seus espectadores até à fortaleza de Noudar para poderem ouvir a lírica da contralto Ellen Rabiner e observar os segredos do firmamento.

O mítico jogador português já falecido Eusébio, o escritor argentino Arnoldo Libermann, o príncipe Paula da Grécia ou a infanta espanhola Pilar de Borbón estão entre as personalidades que foram espectadores deste festival único.

Carlos García