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É ético dar prioridade aos políticos na vacinação contra a covid? O plano de vacinas de Portugal que inclui titulares de cargos políticos no grupo de maiores de 50 anos com patologias de risco provocou uma onda de críticas num país severamente afetado pela pandemia.

"Por imperativo ético e moral não estou disponível para receber a vacina", disse Cristóvão Norte, deputado do PSD (centro-direita), o partido que lidera a oposição ao Governo do socialista António Costa.

Era a sua resposta ao plano de vacinação anunciado pelo Governo, que inclui começar a imunizar políticos e altos cargos a partir da próxima semana, dando-lhes prioridade frente a grupos que têm reivindicado a vacina devido à sua exposição à doença, como os professores.

Norte explicou à imprensa portuguesa que não quer receber a vacina para a covid-19 antes de todos os idosos, trabalhadores de saúde e outros grupos essenciais no combate à pandemia, sobretudo num momento em que Portugal encadeia recordes de falecidos e tem os seus hospitais à beira do colapso.

"Cada vacina desviada para um fim que não seja essencial é mais uma vida que se pode perder", argumentou, e vários políticos estão de acordo com ele.

A indignação pela decisão do Governo cresceu nas últimas horas, quando se conheceu em detalhe quais os cargos que terão acesso à vacina de forma prioritária. Demasiados, apontam os críticos da medida.

Titulares de órgãos de soberania, Provedora da Justiça, membros do Conselho de Estado, magistratura do Ministério Público, membros dos órgãos próprios das regiões autónomas e autarcas são alguns dos beneficiários, segundo a imprensa local.

"Tem sentido vacinar as três primeiras figuras do Estado (primeiro-ministro, presidente e presidente do Parlamento)", mas há dúvidas com os restantes, disse o vice-presidente e deputado do PSD, Ricardo Batista Leite.

Também se mostraram contra o deputado único do Iniciativa Liberal, João Cotrim de Figueiredo, que escreveu ao presidente do Parlamento para lhe avisar que não quer ser incluído no grupo prioritário, ou o líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, que diz que a ideia é "indefensível" e "péssimo exemplo".

"Se estivesse abrangido por esse direito prioritário à vacinação cedia a minha vacina a um idoso", disse Rodrigues dos Santos, de 32 anos.

Por sua parte, o líder do PSD, Rui Rio, recorreu ao Twitter para criticar o "exagero" da vacinação de políticos.

"(O plano prioritário) não inclui médicos do setor privado, mas se estende à totalidade dos órgãos de soberania. Falta firmeza e sentido comum", advertiu.

Mas as críticas não chegam só desde a direita. O Partido Comunista Português, tradicional aliado de Costa, descreveu a lista de beneficiários como "excessiva" e o seu líder, Jerónimo de Sousa, apontou que prefere receber a sua dose devido à idade que tem (73 anos) e não pela condição de político.

Antigos colaboradores do Governo, como o ex-ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes, apelaram também à responsabilidade, ética e "senso comum".

A ideia de dar prioridade aos políticos para a vacinação surge numa altura em que a terceira vaga ataca com força o Governo socialista português, com sete ministros que deram positivo, cinco deles nos últimos 12 dias.

Além disso, este mês soaram os alarmes sobre o presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, de 72 anos, após vários testes com resultados contraditórios que o mantiveram isolado durante alguns dias, embora um diagnóstico negativo tenha sido finalmente confirmado.

Portugal, com uma população de cerca de 10 milhões de habitantes, começou a vacinar a 27 de dezembro com uma primeira fase que inclui trabalhadores de saúde da linha da frente e utentes e trabalhadores de lares, na qual mais de 255.000 pessoas já receberam pelo menos a primeira dose.