EFELisboa

Mais de 200 ex-presos políticos que passaram pela prisão durante a ditadura salazarista (1932-1974) assinaram um manifesto de protesto pela criação de um museu dedicado ao seu fundador, António Oliveira Salazar, na sua terra natal, Santa Comba Dão (norte).

Os signatários, "ex-presos políticos, manifestam, em nome próprio e no da memória de milhares de vítimas do regime fascista -do qual Salazar foi principal mentor e responsável-, o mais veemente repúdio pelo anúncio da criação de um Museu Salazar", indica-se no texto, divulgado esta terça-feira pelo jornal Público.

A Câmara Municipal de Santa Comba Dão quer abrir no final deste ano um museu sobre Salazar e o Estado Novo (a forma institucionalizada do estado corporativo iniciado por Salazar após a aprovação da Constituição de 1933 e que se prolongou até à Revolução dos cravos, de 1974) nessa cidade, que já foi alvo de polémica no passado e inclusivamente condenado pelos partidos de esquerda no Parlamento.

Os signatários do manifesto pedem ao Governo português que intervenha para impedir o projeto e apelam a "todos os democratas e amantes da liberdade" que se manifestem contra o que denominam "memorial" ao ditador.

Consideram que, "longe de procurar esclarecer a população e sobretudo as jovens gerações sobre o que foi o regime fascista", o museu poderá ser um "instrumento" para branquear o ditador e tornar-se num "centro de peregrinação para os nostálgicos do regime derrubado com o 25 de Abril", data da Revolução de 1974.

"Quando em muitos países se assiste ao renascer das forças fascistas, o país não precisa de instrumentos de propaganda do fascismo -que a Constituição expressamente proíbe- mas meios de pedagogia democrática que não deixem esquecer a quantidade de crimes do fascismo salazarista e preserve a memória das suas vítimas", defendem.

O autarca de Santa Comba Dão, o socialista Leonel Gouveia, defendeu em declarações ao semanário Expresso há duas semanas que o museu será "um lugar para o estudo da história do Estado Novo, não um santuário destinado a nacionalistas nem um museu onde se vai diabolizar" Salazar.

O centro será instalado na Escola-Cantina Salazar, edifício situado junto a uma casa na qual o ditador viveu, na aldeia de Vimieiro.

Salazar foi o continuador do regime militar liderado em 1926 pelo marechal António Carmona, que depôs Sidónio Pais.

Foi primeiro-ministro entre 1932 e 1968, quando graves problemas de saúde o obrigaram a deixar o poder, sendo substituído por Marcello Caetano, derrubado pela Revolução dos cravos em abril de 1974.