EFELisboa

"Are you a tourist?", (És turista?) é o título de uma exposição aberta em Lisboa que desmitifica o turismo com um percurso através da história que inclui uma alusão às mulheres que em meados do século XX tinham que pedir permissão aos seus maridos para viajar.

Esta exposição, dirigida por duas antropólogas da Universidade Nova de Lisboa, surgiu das respostas dos visitantes ao popular Padrão dos Descobrimentos lisboeta à pergunta sobre a sua condição de turistas.

Nos vídeos gravados com os seus comentários, muitos refletem frente à câmara, questionando os rótulos sobre a figura do turista, explica à Efe Marta Prista, uma das comissárias da exposição.

Os seus vídeos, gravados em modo selfie, vestem a exposição, junto a outros dispositivos digitais e objetos expostos, em dois grandes ecrãs.

Num deles, Kamal, do Bangladesh, diz sentir-se turista apesar de estar a trabalhar há "dois anos" numa loja de recordações em Lisboa.

"Sou turista nos fins-de-semana", afirma Maria, oriunda de Lisboa. Ao seu lado, Miguel, brasileiro, define-se como "migrante".

A exposição, instalada precisamente no Padrão dos Descobrimentos, sugere ao visitante que se coloque frente a esta dualidade, com um espelho à entrada do recinto que o convida a refletir sobre "o seu próprio posicionamento e participação no mundo", comenta Maria Cadeira de Silva, também curadora do projeto.

Entre a variedade de encontros e desencontros que se sucedem na mostra destacam-se as declarações de cinco mulheres que viajaram nos anos 50 do século XX e precisavam da "permissão do seu marido".

Uma delas lembra nostálgica como conheceu Espanha no assento do táxi do seu pai, que a levava nas viagens mais longas.

Outra, britânica e casada com um lisboeta, relata como organizou uma das primeiras empresas de tours pela capital lusa de língua inglesa e passeava em moto pelo centro da cidade perante o atónito olhar dos homens da época.

Em contraste com estas histórias, a exposição exibe cartazes promocionais de Portugal e objetos típicos de viagem de princípios de século XX, quando se considerava que o turista era o protótipo do "homem moderno".

Agora, a massificação do turismo enfrenta múltiplos debates, como a sustentabilidade, um tema alvo de "múltiplas discussões" dentro da antropologia, enfatiza Prista.

No entanto, segundo a sua opinião, há muitos outros interesses em jogo dentro das políticas sociais, de habitação ou culturais "à margem do turismo", defende.

O debate está aberto em Portugal, que converteu o turismo num dos motores da sua economia e que acusa um problema de gentrificação em Lisboa e Porto, enquanto foi eleito "melhor destino turístico do mundo" e o setor emprega milhares de pessoas.

"Are you a tourist?", aberta até dezembro, sai de estatísticas oficiais para remover o sentido "turístico" no imaginário comum.

Ana Sánchez